Reaparecem os livros de fiados nas lojas da província.
Grande Reportagem percorreu a geografia da fome portuguesa. Por enquanto ainda se enche a barriga com qualquer coisa, tirada da horta, pescada no rio, cedida pela família ou pelos vizinhos, oferecida pelas instituições de solidariedade social. Mas a fome chegará ao nosso país se a situação não se alterar. Rapidamente.
DE TOMAR À MARINHA GRANDE
CAMINHOS DA MISÉRIA
TEXTO: RUI ARAÚJO
FOTOS: JOSÉ PAULO BOAVIDA E JOÃO BAFO
Ela trinca um palito e conta que à medida que os meses correm se sente cada vez mais esquecida da vida. Atira de longe em longe um olhar vagaroso para a gente que passa sem se arredar das suas cogitações e sorri.
— Aconteceu num sábado. Sábado, 29 de Julho. Era ainda noite ou a manhã
estava a romper, já não me lembro. Envenenei-me porque não tinha nada para dar
de comer aos meus quatro filhos. Tomei 60 comprimidos para me matar. Achei que
era a única solução. Já tinha vendido os dois anéis do meu falecido marido por
quatro contos e quinhentos cada um. Naquele momento queria desaparecer. E agora
sou capaz de andar de manhã à noite a chorar. Tenho pessoas que me auxiliam. Eu
choro-me às pessoas e os meus filhos já não passam fome, mas também não passam fartura…
— Guilhermina, 35 anos, ex-operária da Fiação de Tomar, é uma das muitas
sem salário da região de Tomar. Para sobreviver sem passar fome prostitui-se
num centro comercial da cidade. Como ela há mais algumas.
Dos 900 trabalhadores da Fiação
de Tomar, uma empresa com nove meses de salários em atraso, apenas 120 continuam a
trabalhar nos três turnos por falta de meios e matéria-prima. A firma está
praticamente paralisada. A dívida à Banca ronda os 400 mil contos. Muito
recentemente, a Secretaria de Estado da População e Emprego concedeu à empresa
um empréstimo de 42 mil contos — a pagar em duas fracções de 21 mil contos —
que ainda não foi levantado com receio de que seja imediatamente cativado. Se o
cheque não vier a ser transformado em moeda, a administração declarará a
falência da sociedade.
— Há casos de fome e até roubos… Dia 11 foi julgada uma rapariga casada que tem uma filha paralisada e outra no ventre, porque roubou 20 contos a um tio que mais tarde veio a denunciá-la —, conta José Maria Serra, dirigente sindical, um homem que não dá sinal de fraqueza.
A mulher «apanhou três anos com pena suspensa» por ela e o marido estarem na
situação em que estão na fábrica.
Enquanto Guilhermina e uma
amiga se sumem sorrateiramente do centro comercial, o sindicalista fala de
sonhos desfeitos, de miséria e de fome.
O Regimento de Infantaria de
Tomar está a dar de comer aos «sem
salário» e hoje em dia há gente que vai todas as tardes ao hospital pedir ao
técnico radiologista Fininho os restos da comida dos doentes.
— Isto não tem tendência para melhorar e olhe que não é só pessoal da
Fiação: há também toda aquela gente das empresas Joaõ Salvador, Adelino Duarte,Fábrica
de Papel da Matrena, mais as pequenas indústrias de que ninguém fala. —
acrescenta José Serra antes de gritar com rancor que ao contactar partidos e
Igreja «toda a gente disse que sim, mas
sem passar daí».
Pago o lanche e partimos. José
Serra tenta ainda convencer outra rapariga a responder às perguntas da GR, sem
sucesso.
— Fome, há fome! — diz-me antes de apressar o passo.
Pelo passeio fora as palavras
soam-lhe como indecentes. Não se contém e pergunta-me se então não vou falar com
os responsáveis da Fiação. Pois vou. Um dos directores, o dr. Machado,
recebe-me mas considera «inoportuno focar a questão», não dá entrevistas
ou faz quaisquer declarações. Contente com estas fracas informações, põe-me
praticamente na rua.
Tomo um copo na tasca em frente
da fábrica — agora com muitas dificuldades porque lhe faltam os clientes — e
arranco com destino ao Tramagal, uma das raras zonas onde o Governo detectou situações de «carência alimentar» e onde está a actuar o Centro Regional de
Segurança Social de Santarém.
A população do Tramagal (5.300
habitantes) depende inexoravelmente da
Metalúrgica Duarte Ferreira (MDF), uma empresa com 10 meses de salários em
atraso e que acaba de suspender 475 dos seus 1.500 trabalhadores.
— A MDF é uma empresa do sector da indústria metalomecânica pesada,
fundada em 1880, no Tramagal, região que,
em tempo não muito longínquos, fazia parte, com os outros vértices em Tomar e
Torres Novas, de um triângulo considerado estrategicamente como um forte pólo de desenvolvimento
industrial do país — indica um relatório elaborado pela Assembleia da
República em finais do ano passado.
Para a Comissão Parlamentar de
Trabalho, a MDF «tem uma importância simultaneamente nacional e regional, quer
pela sua actividade quer pela localização das suas instalações» (Tramagal,
Porto e Lisboa). A empresa esteve intervencionada durante cinco anos (1974 – 1979) até ser
entregue aos seus antigos proprietários, que não souberam ou não puderam
superar as dificuldades resultantes da crise e da total indefinição
governamental.
O relatório parlamentar põe
algumas questões pertinentes. «Por que
razão o Governo não deu a ajuda solicitada, perfeitamente possível, no caso do
DOSSIER MALANGE», a construção de uma fábrica de máquinas e alfaias
agrícolas em Angola, no valor de 75 milhões de dólares, com fornecimentos
durante seis anos e que acabou por ser realizada pela Jugoslávia, «apenas porque o Governo português não
propiciou o único requisito exigido pelo Governo angolano para preferir a MDF e
que tinha que ver com a necessidade de convencer a administração daquele país
de que não se previa o fecho da empresa durante o tempo considerado para a
execução do contrato».
Fico-me por esta e outras
respostas e dirijo-me à porta da MDF, onde está um grupo de operários
suspensos.
— O problema agravou-se a partir de 8 de Janeiro, quando a administração
da empresa, numa demonstração de força e contra a legislação em vigor, resolveu
suspender 475 trabalhadores. — diz João Constantino, da direcção do
Sindicato dos Metalúrgicos do Distrito de Santarém.
Oiço alguém gritar «raios os partam», mas Constantino acalma
imediatamente os ânimos e prossegue: «Depois
do Mário Soares nos dizer que temos de fazer sacrifícios, que tem de haver
despedimentos e que os trabalhadores despedidos não morrem à fome, destacaram
para aqui forças de intervenção da GNR, uns 120 homens com cães, policias e
gases.»
E o quotidiano? A resposta é que a vida está a degradar-se dia após dia. Já há mais empresas com salários em atraso. A SOMAPRE e as outras…
— É triste a gente ter uma situação destas depois de estar a sobreviver
há 63 anos. — conta Joaquim de Jesus, convulsionado.
— Passo fome! Com quase 10 meses de salário em atraso e a vida cada vez
mais cara, com certeza que as pessoas têm que começar a passar fome. Em vez de
comer duas sardinhas, comem só uma. Ou nenhuma, em muitos casos. Ou comem uma
sopa para enganar o estômago. Se tiver três sardinhas lá em casa, se calhar,
cada filho come uma e eu nada. — lamenta-se outro.
— Infelizmente, no Tramagal, não há estações de Metro para eu dormir mais
a minha mulher e a minha filha. Agora, é só sopita… Parece que não há salvação para
este país! Eu não queria de maneira nenhuma ir roubar, mas a minha filha não
há-de passar fome. — chora Esteves Chaves.
— Ao fim de 19 anos para a rua como um cão. Ao fim de tantos anos, não
sei o que vai ser. Isto é uma infelicidade… — diz Manuel Marques, coberto
de suor, trémulo, a concluir o rol das tragédias.
Interpelo o porteiro da fábrica e peço para ser recebido pelos directores. O homem vem a passos lentos dizer-me que «os senhores directores mandam informar que não estão autorizados a falar com os jornalistas».
A caminho do
consultório do centro médico paro na venda da dona Manuela Feliciana, que
deixou de vender bifes para passar a vender «muita fruta tocada». Um homem de rosto seco, comido pelo cieiro,
aproxima-se e pede para ser ouvido. Anda a palmilhar o Tramagal à espera que o
tempo passe. Tem 34 anos — 12 de empresa — e vive com a mulher e dois filhos.
— Eu tenho que desabafar! Estou farto. Não faço a mínima ideia do que é
que isto vai dar. É muito natural que as pessoas venham a perder a
‘trasmontana’ porque não têm dinheiro. E, digo-lhe, já que o Governo deste país
não quer fazer justiça é muito natural que os trabalhadores deste país a façam
pelas suas mãos. Há já aqui casos de pessoas que se querem matar e de pessoas
que se desorientam…
E largou. Não tinha mais nada
para dizer.
Vou falar com o médico do Centro
de Saúde. O consultório está a rebentar pelas costuras. Chego-me a um enfermeiro
e pergunto pelo doutor Vítor Goucha Jorge. Duas velhotas sentadas ao lado da
janela «rosnam» que não é a minha
vez. Entro no gabinete do médico.
— Viva!
— Boa tarde.
O médico olha para a janela do
gabinete onde se adivinha a trovoada já próxima e depois de um silêncio, para
ganhar segurança — nunca deu entrevistas — faz o seu balanço.
— Há uma insegurança nas pessoas, o que lhes dá uma instabilidade psíquica
maior. Por isso, recorrem mais vezes ao médico para obterem tranquilizantes,
uns hipnóticos ou qualquer outra coisa que as ajude a passar melhor. Vejo
pessoas bastante caídas, depressões, sindromas depressivos… Quando isto começou
notou-se um menor rendimento das crianças nas escolas devido à má alimentação.
— Mas não há apoios?
— Alguns. Para minimizar a situação, criámos um grupo — o Centro de Apoio
e Desenvolvimento para o Tramagal — para ajudar as pessoas. Ocupamos as
mulheres a fazer tapetes de Arraiolos. Temos um curso de ferros forjados e
outro de tractoristas. Damos também um lanche, um suplemento alimentar a todas
as crianças em idade escolar, que consta de uma refeição a meio da manhã. É
leite que a Cáritas nos tem dado, com um suplemento vitamínico, marmelada,
queijo e pão. O pão é oferecido pelo Campo Militar de Santa Margarida. São
cerca de 800 pães diários para estas crianças… A situação é difícil. É possível
que haja fome e que nós estejamos só a tentar minimizar as insuficiências, mas
isso não resolve o problema porque depois faltam a carne e o peixe e os outros
alimentos essenciais.
— Como uma refeição por dia e, muitas vezes, para dar aos meus filhos,
não como. Tenho a loja a fiar-me, mas, coitada da pessoa, muitas vezes também
não pode…
— O que é que os seus filhos dizem?
— Os mais pequeninos não percebem. Eles pedem-me pão. Os mais velhos é
que vêem que já não podem comer tanto e que é preciso dividir.
— O que foi o vosso almoço?
— Grelos com batatas e um ovo para cada um.
Cala-se. Uma vizinha
aproxima-se. Maria F. Almeida, 55 anos, viúva há 24, tem um filho que é pintor
na fábrica. Às tantas, ele já nem se admira de não comer e, se calhar, ela
também não.
— Não tenho de onde venha um pratinho de sopa. Não tenho casa nem eira.
Estou junta com a minha filha. E ainda tenho mais dois filhos ao meu encargo. Um
trabalha ali e o outro está desempregado. Sim, senhor! Tenho passado muita
fominha. As almas boas é que nos têm valido., mas chegou-se ao mês de Janeiro e
deixaram de dar fiado à gente…
Fontela. Km 213,63 da CP. À
frente dos portões selados da fábrica, um mar de vidro partido, uma tasca às
moscas e o rio. Os 650 trabalhadores da Vidreira que se encontram no desemprego
desde 23 de Dezembro de 1982 ainda continuam a aparecer aqui para matar
saudades, mas qualquer dia já não vem ninguém. Agora, muitos já vão ficando
pelo café de Vila Verde a conversar e a beber uns copitos.
Fontela está a tornar-se definitivamente
uma vila fantasma. Até nem padre há na igreja… Fontela é um calafrio.
José Aranha Grilo é um dos
despedidos da Vidreira, onde trabalhou dos 14 aos 24 anos. O rapaz recebe,
hoje, um subsídio de desemprego de 12
contos. O preço de uma existência. Trabalho, não há. Toda a gente «vivia da Vidreira». Fala
telegraficamente dos casos dos outros. Dos cortes de linha, da história do rali
e dos suicídios. José Aranha Grilo traz a amargura consigo. Diz adeus e
desaparece.
— As pessoas passam um mau momento. Passam muito mal. Há pessoas aí a
lutar com grandes dificuldades. A Junta de Freguesia de Vila Verde não tem
hipóteses de ajudá-las. Tem ajudado naquilo que pode — burocraticamente, mas é
tudo. — conta o presidente da Junta PS, enquanto João Gomes, dirigente
sindical PC, se ri por dentro. Aqui, como lá fora, socialistas e comunistas
continuam a ter relações mancas. Para o sindicalista há que denunciar a miséria
— a fome envergonhada. Logo que entra no carro berra um «ora bolas» e depois de acenar para o presidente da junta, afirma
que «há fome e a prova disso é a campanha
de solidariedade encetada pela organização holandesa Tulipa Vermelha com vista
ao abastecimento de Fontela/Vila Verde em géneros alimentícios».
O Bairro dos Pobres, em Vila
Verde, é uma aldeia onde vive uma grande parte dos operários da Vidreira. Roupa
estendida, garotada a brincar e mulheres a trabalhar — atentas à chegada de
estrangeiros. É aí que reside Cecília Oliveira. Acolhe-me de braços abertos e,
logo a seguir, começa a queixar-se.
— Quando o meu marido trabalhava, eu tinha dinheiro e governava-me bem,
mas agora já não sei o que há-de ser da gente. Ou temos de morrer de forme ou
não sei o que há-de ser isto. Se não nos dessem de comer, já tínhamos morrido…
Atentas, as crianças dão por
finda a sua intrusão e voltam para o beiral da porta. Dona Cecília aconselha-me
a falar com o marido que está no café e mergulha na faina caseira.
A caminho do café, por entre
ruelas gastas, encontro um rebanho de ovelhas e, um pouco mais adiante, um grupo
de pessoas. Vejo lutos carregados e caras mortificadas. Paro. Depois da
saudação, indago a vida que por ali corre.
— O meu marido trabalhava na fábrica e o meu cunhado também. Depois, o meu cunhado ficou sem emprego e agora está cá a comer e a beber, mais os seus cinco filhos. Se não fosse a gente, morriam à fome!
Uma velhota, sentada na soleira
da porta, aponta-me a casa 6 e espeta os olhos na negrura, sem dizer patavina.
— Vossemecê vem dar alguma coisa?
— Vim só falar com eles…
Uma luz trémula escapa-se das
fendas do barracão (3 quartos) onde vivem os Dias. Noémia, o marido, os seis
filhos do casal, mais uma cunhada e a neta.
Casa 6, rua 7, Ordem, Marinha
Grande.
Uma cachopa abre a porta e uma
voz cansada manda-me entrar. No ar paira um cheiro de lenha. A mulher mastiga
um pedaço de couve — saudação monossilábica — e bebe um trago. A miudagem,
dispersa à volta da lareira, sorri. Uma lamparina a petróleo aparece na mesa
onde acabo de deixar cair o meu bloco. A matrona começa a falar enquanto come a
sopa. A sopa, aqui, é entrada, conduto e sobremesa.
— Quando há feijão é todos os dias sopa de feijão. Hoje é uma espécie de
cozido, porque deram um naco de carne à minha filha. Outras vezes, bebe-se café
de cevada com um papo-seco. A minha comadre também me dá a sopa que não come lá
em casa…
Noémia Dias, 4 anos, 10 filhos,
ex-operária do vidro, leva a mão gordurosa à cabeça do petiz mais novo e
faz-lhe uma festa.
— A minha menina, ao sábado vai pedir esmola. O dinheiro ainda não dá
para viver. Eu, ao fim do mês, dou logo metade a cada merceeiro, senão não me
fiam. O Governo deu-me alguma coisa para a escola dos miúdos o ano passado, mas
este ano não deu nada. Ainda não lhes comprei os livros porque quando tenho
algum dinheirito é para o leite do bebé, que anda a beber café.
O bebé, o 10.º filho!
— Porquê tantos?
— O meu homem não tem cuidado! O
médico dizia-lhe para ter cuidado que a vida não está para ter tantos filhos…
O filho mais velho, Vítor
Manuel, 23 anos, junto com a Lurdes, olha para a mãe.
A lenha seca estala. O bafo da
nossa respiração ergue-se, lentamente, na humidade.
— E o futuro?
— Se isto não se resolver vai
para pior… Mas temos esperança!
Há meses atrás, a palavra 'esperança' já não fazia parte do vocabulário dos operários da indústria vidreira
da Marinha Grande. A região, que durante anos tinha absorvido mão-de-obra de
todo o país, viu-se subitamente confrontada com a realidade da crise. Cinco das
maiores empresas do vidro — Dâmaso, Cive, J. Ferreira Custódio, Manuel Pereira
Roldão e Ivima — cessaram de pagar salários em finais de 1983, princípios de
1984, colocando cerca de 2.650 trabalhadores em situação dramática. Cinco
outras empresas de menor dimensão encerraram as portas, empurrando 410
operários para o desemprego. Mais de 70% do comércio fechou, segundo dados
sindicais. O número de pedintes não parou de aumentar desde então. Houve pais
que chegaram a mandar os filhos para a província e que ainda hoje continuam
separados deles.
— O Governo prontificou-se a tomar algumas medidas de apoio para
minimizar a situação, mas há empresas que têm oito, nove meses de salários em
atraso. Temos de nos apetrechar tecnologicamente. Não podemos ficar pelas meias
tintas. Eu ainda não sei como vai ser o mês que vem… — diz-me um dos
directores da Ivima.
Entretanto, resta a caridade. A organização internacional Tulipa Vermelha fez, em fins de Dezembro, um donativo
de 2.987 contos para ajudar os trabalhadores com salários em atraso. A verba
foi distribuída pelo Sindicato dos Vidreiros e esgotou-se num mês.
— Demos 1.650$00 por criança até aos 13 anos — uma caderneta com senhas
para os pais irem à Cooperativa do Povo da Marinha Grande comprar géneros
alimentícios. — diz o presidente do sindicato, Raúl Ferreira, também ele
com salários em atraso.
— A fome não é tão visível porque houve recurso a outros lados, desde a
venda de fios, pulseiras e alianças à concessão de facilidades por parte dos
comerciantes. — conta o sindicalista. Na realidade, instaurou-se um clima
de solidariedade. O próprio gerente da Sapataria
Bom Preço, José Mendes da Silva, chegou a oferecer no Natal aos sem salário
50 pares de sapatos e, no Dia da Mãe, deu uma saltada à escola para entregar um
cheque de 100$00 aos garotos mais pobres. Para o homem do Bom Preço «até houve muita
humildade na escolha e se fosse necesário fazer o mesmo, voltava a fazê-lo, mas
já não deve ser.»
A situação parece estar a
melhorar. Na Escola Preparatória da Marinha Grande já nenhuma criança vai
buscar, às escondidas, restos de pão aos caixotes do lixo. Também já não há
mais garotos que desmaiam na aula por causa da fome. E se no dia 2 de cada
mêsnão era raro ver crianças espancadas — pagavam o desespero dos pais que não
recebiam ordenado — hoje isso já acontece com menos frequência. Até princípios
de 85, as bolachas, os chocolates e os
bolos não se vendiam na escola. As crianças comiam unicamente pão com manteiga.
Alunos que não gostavam de peixe pediam sempre repetição, enquanto que agora já
recuam quando aparece «peixinho» ao
almoço.
— A única vantagem foi começarem a gostar de salada porque, como tinham
fome, comiam de tudo… — diz Abel Monteiro, o vice-presidente da escola,
antes de levar a mão a um espesso «dossier»
e garantir que «houve mães que chegaram a dar filhos a feirantes». A
secretária, Maria Melo, enternecida, não deixa de acrescentar que testemunhou
um dos casos em que uma mulher se dirigiu à professora para lhe oferecer o
filho. Uma dessas crianças nunca mais voltou…
Com ou sem melhoria, ainda houve
30 alunos que não se matricularam em 1985, apesar de a escolaridade ser
obrigatória. A razão invocada é sempre a mesma: falta de meios. Senão vejamos: «Eu, João C., responsável pela educação do
meu (neto) educando Marcos S., não compareci à matrícula, por motivo de me
encontrar impossibilitado de trabalhar, já há um ano, tendo a necessidade de
que o meu educando , logo que complete os 14 anos vá ganhar para sobreviver.
Por este motivo peço a V. Ex.ª a máxima desculpa. 31/Outubro/84.»
Dou mais uma saltada até à Ordem,
zona onde vive uma grande parte dos «sem salário» da indústria vidreira para
saber até que ponto é que a esperança no futuro pode ser contabilizada.
Chove. Ao lusco-fusco,
personagens indistintas esgueiram-se paredes meias com a dormência que parece
ter invadido a vila. Entro no primeiro comércio que vislumbro, a loja do senhor
Madeira. O homem vende de tudo. O local é simultaneamente supermercado, tasca e
salão de jogo. Meia dúzia de pessoas disputam uma partida de bilhar, na sala do
fundo, enquanto uma cliente vai barafustando ao ajeitar as compras dentro de um
saco de lona.
— Eu dantes não vendia Kentucky e depois passei a vender. Por 12 mil réis
mata o vício à malta. Agora é que começo a vender outras marcas… — diz-me o
dono da loja, enquanto ampara uma lata aqui e acomoda uma embalagem acolá.
Insiste:
— Dantes até vendia roupas e tive de deixar de vender. O rol tem vindo a
aumentar… mas é provável que a partir do mês que vem isto se recomponha. Já
começaram a receber…
Rui Araújo
In GRANDE REPORTAGEM, 22 a 28 de Fevereiro de 1985 – Lisboa
PS- Agradeço o empenho e o excelente trabalho dos repórteres fotográficos João Paulo Boavida e João Bafo.









