PORTUGAL - A AMEAÇA DA FOME

 



O desemprego, o atraso no pagamento de salários e a inflação arrastam para a pobreza famílias operárias e alguns estratos da classe média baixa.

Reaparecem os livros de fiados nas lojas da província.

Grande Reportagem percorreu a geografia da fome portuguesa. Por enquanto ainda se enche a barriga com qualquer coisa, tirada da horta, pescada no rio, cedida pela família ou pelos vizinhos, oferecida pelas instituições de solidariedade social. Mas a fome chegará ao nosso país se a situação não se alterar. Rapidamente.

DE TOMAR À MARINHA GRANDE

CAMINHOS DA MISÉRIA


TEXTO: RUI ARAÚJO

FOTOS: JOSÉ PAULO BOAVIDA E JOÃO BAFO

Ela trinca um palito e conta que à medida que os meses correm se sente cada vez mais esquecida da vida. Atira de longe em longe um olhar vagaroso para a gente que passa sem se arredar das suas cogitações e sorri.

Aconteceu num sábado. Sábado, 29 de Julho. Era ainda noite ou a manhã estava a romper, já não me lembro. Envenenei-me porque não tinha nada para dar de comer aos meus quatro filhos. Tomei 60 comprimidos para me matar. Achei que era a única solução. Já tinha vendido os dois anéis do meu falecido marido por quatro contos e quinhentos cada um. Naquele momento queria desaparecer. E agora sou capaz de andar de manhã à noite a chorar. Tenho pessoas que me auxiliam. Eu choro-me às pessoas e os meus filhos já não passam fome, mas também não passam fartura… — Guilhermina, 35 anos, ex-operária da Fiação de Tomar, é uma das muitas sem salário da região de Tomar. Para sobreviver sem passar fome prostitui-se num centro comercial da cidade. Como ela há mais algumas.

Dos 900 trabalhadores da Fiação de Tomar, uma empresa com nove meses de salários em atraso, apenas 120 continuam a trabalhar nos três turnos por falta de meios e matéria-prima. A firma está praticamente paralisada. A dívida à Banca ronda os 400 mil contos. Muito recentemente, a Secretaria de Estado da População e Emprego concedeu à empresa um empréstimo de 42 mil contos — a pagar em duas fracções de 21 mil contos — que ainda não foi levantado com receio de que seja imediatamente cativado. Se o cheque não vier a ser transformado em moeda, a administração declarará a falência da sociedade.

— Há casos de fome e até roubos… Dia 11 foi julgada uma rapariga casada que tem uma filha paralisada e outra no ventre, porque roubou 20 contos a um tio que mais tarde veio a denunciá-la , conta José Maria Serra, dirigente sindical, um homem que não dá sinal de fraqueza.

A mulher «apanhou três anos com pena suspensa» por ela e o marido estarem na situação em que estão na fábrica.

Enquanto Guilhermina e uma amiga se sumem sorrateiramente do centro comercial, o sindicalista fala de sonhos desfeitos, de miséria e de fome.

O Regimento de Infantaria de Tomar está a dar de comer aos «sem salário» e hoje em dia há gente que vai todas as tardes ao hospital pedir ao técnico radiologista Fininho os restos da comida dos doentes.

Isto não tem tendência para melhorar e olhe que não é só pessoal da Fiação: há também toda aquela gente das empresas Joaõ Salvador, Adelino Duarte,Fábrica de Papel da Matrena, mais as pequenas indústrias de que ninguém fala. — acrescenta José Serra antes de gritar com rancor que ao contactar partidos e Igreja «toda a gente disse que sim, mas sem passar daí».

Pago o lanche e partimos. José Serra tenta ainda convencer outra rapariga a responder às perguntas da GR, sem sucesso.

Fome, há fome! — diz-me antes de apressar o passo.

Pelo passeio fora as palavras soam-lhe como indecentes. Não se contém e pergunta-me se então não vou falar com os responsáveis da Fiação. Pois vou. Um dos directores, o dr. Machado, recebe-me mas considera  «inoportuno focar a questão», não dá entrevistas ou faz quaisquer declarações. Contente com estas fracas informações, põe-me praticamente na rua.

Tomo um copo na tasca em frente da fábrica — agora com muitas dificuldades porque lhe faltam os clientes — e arranco com destino ao Tramagal, uma das raras zonas onde o Governo  detectou situações de «carência alimentar» e onde está a actuar o Centro Regional de Segurança Social de Santarém.

A população do Tramagal (5.300 habitantes) depende inexoravelmente  da Metalúrgica Duarte Ferreira (MDF), uma empresa com 10 meses de salários em atraso e que acaba de suspender 475 dos seus 1.500 trabalhadores.

A MDF é uma empresa do sector da indústria metalomecânica pesada, fundada  em 1880, no Tramagal, região que, em tempo não muito longínquos, fazia parte, com os outros vértices em Tomar e Torres Novas, de um triângulo considerado estrategicamente  como um forte pólo de desenvolvimento industrial do país — indica um relatório elaborado pela Assembleia da República em finais do ano passado.

Para a Comissão Parlamentar de Trabalho, a MDF «tem uma importância simultaneamente nacional e regional, quer pela sua actividade quer pela localização das suas instalações» (Tramagal, Porto e Lisboa). A empresa esteve intervencionada  durante cinco anos (1974 – 1979) até ser entregue aos seus antigos proprietários, que não souberam ou não puderam superar as dificuldades resultantes da crise e da total indefinição governamental.

O relatório parlamentar põe algumas questões pertinentes. «Por que razão o Governo não deu a ajuda solicitada, perfeitamente possível, no caso do DOSSIER MALANGE», a construção de uma fábrica de máquinas e alfaias agrícolas em Angola, no valor de 75 milhões de dólares, com fornecimentos durante seis anos e que acabou por ser realizada pela Jugoslávia, «apenas porque o Governo português não propiciou o único requisito exigido pelo Governo angolano para preferir a MDF e que tinha que ver com a necessidade de convencer a administração daquele país de que não se previa o fecho da empresa durante o tempo considerado para a execução do contrato».

Fico-me por esta e outras respostas e dirijo-me à porta da MDF, onde está um grupo de operários suspensos.

O problema agravou-se a partir de 8 de Janeiro, quando a administração da empresa, numa demonstração de força e contra a legislação em vigor, resolveu suspender 475 trabalhadores. — diz João Constantino, da direcção do Sindicato dos Metalúrgicos do Distrito de Santarém.

Oiço alguém gritar «raios os partam», mas Constantino acalma imediatamente os ânimos e prossegue: «Depois do Mário Soares nos dizer que temos de fazer sacrifícios, que tem de haver despedimentos e que os trabalhadores despedidos não morrem à fome, destacaram para aqui forças de intervenção da GNR, uns 120 homens com cães, policias e gases.»

E o quotidiano? A resposta é que a vida está a degradar-se dia após dia. Já há mais empresas com salários em atraso. A SOMAPRE e as outras…

Mais uma entrevista de gravador em punho: todas as palavras têm significado...
Foto: José Paulo Boavida

As pessoas vão-se amontoando à minha volta. Rostos sem uma aberta de esperança envolvem-me em mil dramas.

É triste a gente ter uma situação destas depois de estar a sobreviver há 63 anos. — conta Joaquim de Jesus, convulsionado.

Passo fome! Com quase 10 meses de salário em atraso e a vida cada vez mais cara, com certeza que as pessoas têm que começar a passar fome. Em vez de comer duas sardinhas, comem só uma. Ou nenhuma, em muitos casos. Ou comem uma sopa para enganar o estômago. Se tiver três sardinhas lá em casa, se calhar, cada filho come uma e eu nada. — lamenta-se outro.

Infelizmente, no Tramagal, não há estações de Metro para eu dormir mais a minha mulher e a minha filha. Agora, é só sopita… Parece que não há salvação para este país! Eu não queria de maneira nenhuma ir roubar, mas a minha filha não há-de passar fome. — chora Esteves Chaves.

Ao fim de 19 anos para a rua como um cão. Ao fim de tantos anos, não sei o que vai ser. Isto é uma infelicidade… — diz Manuel Marques, coberto de suor, trémulo, a concluir o rol das tragédias.

Interpelo o porteiro da fábrica e peço para ser recebido pelos directores. O homem vem a passos lentos dizer-me que «os senhores directores mandam informar que não estão autorizados a falar com os jornalistas». 

A caminho do consultório do centro médico paro na venda da dona Manuela Feliciana, que deixou de vender bifes para passar a vender «muita fruta tocada». Um homem de rosto seco, comido pelo cieiro, aproxima-se e pede para ser ouvido. Anda a palmilhar o Tramagal à espera que o tempo passe. Tem 34 anos — 12 de empresa — e vive com a mulher e dois filhos.

Eu tenho que desabafar! Estou farto. Não faço a mínima ideia do que é que isto vai dar. É muito natural que as pessoas venham a perder a ‘trasmontana’ porque não têm dinheiro. E, digo-lhe, já que o Governo deste país não quer fazer justiça é muito natural que os trabalhadores deste país a façam pelas suas mãos. Há já aqui casos de pessoas que se querem matar e de pessoas que se desorientam…

E largou. Não tinha mais nada para dizer.

Vou falar com o médico do Centro de Saúde. O consultório está a rebentar pelas costuras. Chego-me a um enfermeiro e pergunto pelo doutor Vítor Goucha Jorge. Duas velhotas sentadas ao lado da janela «rosnam» que não é a minha vez. Entro no gabinete do médico.

— Viva!

— Boa tarde.

O médico olha para a janela do gabinete onde se adivinha a trovoada já próxima e depois de um silêncio, para ganhar segurança — nunca deu entrevistas — faz o seu balanço.

Há uma insegurança nas pessoas, o que lhes dá uma instabilidade psíquica maior. Por isso, recorrem mais vezes ao médico para obterem tranquilizantes, uns hipnóticos ou qualquer outra coisa que as ajude a passar melhor. Vejo pessoas bastante caídas, depressões, sindromas depressivos… Quando isto começou notou-se um menor rendimento das crianças nas escolas devido à má alimentação.

Mas não há apoios?

Alguns. Para minimizar a situação, criámos um grupo — o Centro de Apoio e Desenvolvimento para o Tramagal — para ajudar as pessoas. Ocupamos as mulheres a fazer tapetes de Arraiolos. Temos um curso de ferros forjados e outro de tractoristas. Damos também um lanche, um suplemento alimentar a todas as crianças em idade escolar, que consta de uma refeição a meio da manhã. É leite que a Cáritas nos tem dado, com um suplemento vitamínico, marmelada, queijo e pão. O pão é oferecido pelo Campo Militar de Santa Margarida. São cerca de 800 pães diários para estas crianças… A situação é difícil. É possível que haja fome e que nós estejamos só a tentar minimizar as insuficiências, mas isso não resolve o problema porque depois faltam a carne e o peixe e os outros alimentos essenciais.

A outra faceta da miséria...
Foto: João Bafo

Os «novos pobres» do Bairro Social do Tramagal vão enfrentando o tempo sem garantias. Mulheres — algumas muito novas — vestidas de negro e muita miudagem. Uma delas, com uma pequenita ao colo, diz que passa fome, muita fome. Chama-se Manuela Lopes e tem quatro filhos. Reparo que alisa continuamente a penugem do filho, sôfrego de colo.

Como uma refeição por dia e, muitas vezes, para dar aos meus filhos, não como. Tenho a loja a fiar-me, mas, coitada da pessoa, muitas vezes também não pode…

O que é que os seus filhos dizem?

Os mais pequeninos não percebem. Eles pedem-me pão. Os mais velhos é que vêem que já não podem comer tanto e que é preciso dividir.

O que foi o vosso almoço?

Grelos com batatas e um ovo para cada um.

Cala-se. Uma vizinha aproxima-se. Maria F. Almeida, 55 anos, viúva há 24, tem um filho que é pintor na fábrica. Às tantas, ele já nem se admira de não comer e, se calhar, ela também não.

Não tenho de onde venha um pratinho de sopa. Não tenho casa nem eira. Estou junta com a minha filha. E ainda tenho mais dois filhos ao meu encargo. Um trabalha ali e o outro está desempregado. Sim, senhor! Tenho passado muita fominha. As almas boas é que nos têm valido., mas chegou-se ao mês de Janeiro e deixaram de dar fiado à gente…

Fontela. Km 213,63 da CP. À frente dos portões selados da fábrica, um mar de vidro partido, uma tasca às moscas e o rio. Os 650 trabalhadores da Vidreira que se encontram no desemprego desde 23 de Dezembro de 1982 ainda continuam a aparecer aqui para matar saudades, mas qualquer dia já não vem ninguém. Agora, muitos já vão ficando pelo café de Vila Verde a conversar e a beber uns copitos.

Fontela está a tornar-se definitivamente uma vila fantasma. Até nem padre há na igreja… Fontela é um calafrio.

José Aranha Grilo é um dos despedidos da Vidreira, onde trabalhou dos 14 aos 24 anos. O rapaz recebe, hoje, um subsídio de desemprego  de 12 contos. O preço de uma existência. Trabalho, não há. Toda a gente «vivia da Vidreira». Fala telegraficamente dos casos dos outros. Dos cortes de linha, da história do rali e dos suicídios. José Aranha Grilo traz a amargura consigo. Diz adeus e desaparece.

As pessoas passam um mau momento. Passam muito mal. Há pessoas aí a lutar com grandes dificuldades. A Junta de Freguesia de Vila Verde não tem hipóteses de ajudá-las. Tem ajudado naquilo que pode — burocraticamente, mas é tudo. — conta o presidente da Junta PS, enquanto João Gomes, dirigente sindical PC, se ri por dentro. Aqui, como lá fora, socialistas e comunistas continuam a ter relações mancas. Para o sindicalista há que denunciar a miséria — a fome envergonhada. Logo que entra no carro berra um «ora bolas» e depois de acenar para o presidente da junta, afirma que «há fome e a prova disso é a campanha de solidariedade encetada pela organização holandesa Tulipa Vermelha com vista ao abastecimento de Fontela/Vila Verde em géneros alimentícios».

O Bairro dos Pobres, em Vila Verde, é uma aldeia onde vive uma grande parte dos operários da Vidreira. Roupa estendida, garotada a brincar e mulheres a trabalhar — atentas à chegada de estrangeiros. É aí que reside Cecília Oliveira. Acolhe-me de braços abertos e, logo a seguir, começa a queixar-se.

Quando o meu marido trabalhava, eu tinha dinheiro e governava-me bem, mas agora já não sei o que há-de ser da gente. Ou temos de morrer de forme ou não sei o que há-de ser isto. Se não nos dessem de comer, já tínhamos morrido…

Atentas, as crianças dão por finda a sua intrusão e voltam para o beiral da porta. Dona Cecília aconselha-me a falar com o marido que está no café e mergulha na faina caseira.

A caminho do café, por entre ruelas gastas, encontro um rebanho de ovelhas e, um pouco mais adiante, um grupo de pessoas. Vejo lutos carregados e caras mortificadas. Paro. Depois da saudação, indago a vida que por ali corre.

O meu marido trabalhava na fábrica e o meu cunhado também. Depois, o meu cunhado  ficou sem emprego e agora está cá a comer e a beber, mais os seus cinco filhos. Se não fosse a gente, morriam à fome!

Uma velhota, sentada na soleira da porta, aponta-me a casa 6 e espeta os olhos na negrura, sem dizer patavina.

Vossemecê vem dar alguma coisa?

Vim só falar com eles…

Uma luz trémula escapa-se das fendas do barracão (3 quartos) onde vivem os Dias. Noémia, o marido, os seis filhos do casal, mais uma cunhada e a neta.

Casa 6, rua 7, Ordem, Marinha Grande.

Uma cachopa abre a porta e uma voz cansada manda-me entrar. No ar paira um cheiro de lenha. A mulher mastiga um pedaço de couve ­— saudação monossilábica — e bebe um trago. A miudagem, dispersa à volta da lareira, sorri. Uma lamparina a petróleo aparece na mesa onde acabo de deixar cair o meu bloco. A matrona começa a falar enquanto come a sopa. A sopa, aqui, é entrada, conduto e sobremesa.

Quando há feijão é todos os dias sopa de feijão. Hoje é uma espécie de cozido, porque deram um naco de carne à minha filha. Outras vezes, bebe-se café de cevada com um papo-seco. A minha comadre também me dá a sopa que não come lá em casa…

Noémia Dias, 4 anos, 10 filhos, ex-operária do vidro, leva a mão gordurosa à cabeça do petiz mais novo e faz-lhe uma festa.

A minha menina, ao sábado vai pedir esmola. O dinheiro ainda não dá para viver. Eu, ao fim do mês, dou logo metade a cada merceeiro, senão não me fiam. O Governo deu-me alguma coisa para a escola dos miúdos o ano passado, mas este ano não deu nada. Ainda não lhes comprei os livros porque quando tenho algum dinheirito é para o leite do bebé, que anda a beber café.

O bebé, o 10.º filho!

Porquê tantos?

— O meu homem não tem cuidado! O médico dizia-lhe para ter cuidado que a vida não está para ter tantos filhos…

O filho mais velho, Vítor Manuel, 23 anos, junto com a Lurdes, olha para a mãe.

A lenha seca estala. O bafo da nossa respiração ergue-se, lentamente, na humidade.

E o futuro?

— Se isto não se resolver vai para pior… Mas temos esperança!

Há meses atrás, a palavra 'esperança' já não fazia parte do vocabulário dos operários da indústria vidreira da Marinha Grande. A região, que durante anos tinha absorvido mão-de-obra de todo o país, viu-se subitamente confrontada com a realidade da crise. Cinco das maiores empresas do vidro — Dâmaso, Cive, J. Ferreira Custódio, Manuel Pereira Roldão e Ivima — cessaram de pagar salários em finais de 1983, princípios de 1984, colocando cerca de 2.650 trabalhadores em situação dramática. Cinco outras empresas de menor dimensão encerraram as portas, empurrando 410 operários para o desemprego. Mais de 70% do comércio fechou, segundo dados sindicais. O número de pedintes não parou de aumentar desde então. Houve pais que chegaram a mandar os filhos para a província e que ainda hoje continuam separados deles.

A Vidreira da Portela deixou de ser um porto de abrigo...
Foto: José Paulo Boavida

O Pacto Social — acordo de viabilização — de 4 de Janeiro de 1985 foi apenas um balão de ar fresco para uma indústria em crise. E se hoje algumas destas empresas já actualizaram os ordenados, não é menos verdade que há centenas de trabalhadores a receber no «dia 50», de 50 em 50 dias. Em Março, a situação deveria estar regularizada, apesar de não haver certezas.

O Governo prontificou-se a tomar algumas medidas de apoio para minimizar a situação, mas há empresas que têm oito, nove meses de salários em atraso. Temos de nos apetrechar tecnologicamente. Não podemos ficar pelas meias tintas. Eu ainda não sei como vai ser o mês que vem… — diz-me um dos directores da Ivima.

Entretanto, resta a caridade. A organização internacional Tulipa Vermelha fez, em fins de Dezembro, um donativo de 2.987 contos para ajudar os trabalhadores com salários em atraso. A verba foi distribuída pelo Sindicato dos Vidreiros e esgotou-se num mês.

Demos 1.650$00 por criança até aos 13 anos — uma caderneta com senhas para os pais irem à Cooperativa do Povo da Marinha Grande comprar géneros alimentícios. — diz o presidente do sindicato, Raúl Ferreira, também ele com salários em atraso.

A fome não é tão visível porque houve recurso a outros lados, desde a venda de fios, pulseiras e alianças à concessão de facilidades por parte dos comerciantes. — conta o sindicalista. Na realidade, instaurou-se um clima de solidariedade. O próprio gerente da Sapataria Bom Preço, José Mendes da Silva, chegou a oferecer no Natal aos sem salário 50 pares de sapatos e, no Dia da Mãe, deu uma saltada à escola para entregar um cheque de 100$00 aos garotos mais pobres. Para o homem do Bom Preço «até houve muita humildade na escolha e se fosse necesário fazer o mesmo, voltava a fazê-lo, mas já não deve ser.»

A situação parece estar a melhorar. Na Escola Preparatória da Marinha Grande já nenhuma criança vai buscar, às escondidas, restos de pão aos caixotes do lixo. Também já não há mais garotos que desmaiam na aula por causa da fome. E se no dia 2 de cada mêsnão era raro ver crianças espancadas — pagavam o desespero dos pais que não recebiam ordenado — hoje isso já acontece com menos frequência. Até princípios de 85, as bolachas, os chocolates  e os bolos não se vendiam na escola. As crianças comiam unicamente pão com manteiga. Alunos que não gostavam de peixe pediam sempre repetição, enquanto que agora já recuam quando aparece «peixinho» ao almoço.

A única vantagem foi começarem a gostar de salada porque, como tinham fome, comiam de tudo… — diz Abel Monteiro, o vice-presidente da escola, antes de levar a mão a um espesso «dossier» e garantir que «houve mães que chegaram a dar filhos a feirantes». A secretária, Maria Melo, enternecida, não deixa de acrescentar que testemunhou um dos casos em que uma mulher se dirigiu à professora para lhe oferecer o filho. Uma dessas crianças nunca mais voltou…

Com ou sem melhoria, ainda houve 30 alunos que não se matricularam em 1985, apesar de a escolaridade ser obrigatória. A razão invocada é sempre a mesma: falta de meios. Senão vejamos: «Eu, João C., responsável pela educação do meu (neto) educando Marcos S., não compareci à matrícula, por motivo de me encontrar impossibilitado de trabalhar, já há um ano, tendo a necessidade de que o meu educando , logo que complete os 14 anos vá ganhar para sobreviver. Por este motivo peço a V. Ex.ª a máxima desculpa. 31/Outubro/84.»

Dou mais uma saltada até à Ordem, zona  onde vive uma grande parte dos «sem salário» da indústria vidreira para saber até que ponto é que a esperança no futuro pode ser contabilizada.

Chove. Ao lusco-fusco, personagens indistintas esgueiram-se paredes meias com a dormência que parece ter invadido a vila. Entro no primeiro comércio que vislumbro, a loja do senhor Madeira. O homem vende de tudo. O local é simultaneamente supermercado, tasca e salão de jogo. Meia dúzia de pessoas disputam uma partida de bilhar, na sala do fundo, enquanto uma cliente vai barafustando ao ajeitar as compras dentro de um saco de lona.

Eu dantes não vendia Kentucky e depois passei a vender. Por 12 mil réis mata o vício à malta. Agora é que começo a vender outras marcas… — diz-me o dono da loja, enquanto ampara uma lata aqui e acomoda uma embalagem acolá.

Insiste:

Dantes até vendia roupas e tive de deixar de vender. O rol tem vindo a aumentar… mas é provável que a partir do mês que vem isto se recomponha. Já começaram a receber…

Rui Araújo

In GRANDE REPORTAGEM, 22 a 28 de Fevereiro de 1985 – Lisboa

PS- Agradeço o empenho e o excelente trabalho dos repórteres fotográficos João Paulo Boavida e João Bafo. 

PESCUEZA - ESTA TERRA É PARA VELHOS

 


Península Ibérica: o perigo é o despovoamento.
Foto: Rui Araújo

"VERSIÓN EN ESPAÑOL:

"Pescueza, esta tierra es para viejos. Soledades en la frontera lusoespañola"

https://www.fronterad.com/pescueza-esta-tierra-es-para-viejos-soledades-en-la-frontera-lusoespanola/

FRONTERAd -Madrid


A meio da manhã orvalhada, dou com dois velhos janotas sentados num banco do pátio do Centro de Dia de Pescueza. Meto conversa com o do panamá alvo. Dá ares de ser um homem bonachão. O outro parece ser de poucas falas.

—  Seja bem aparecido, cavalheiro!

Ángel Martín Sánchez, por alcunha Tío Ángel, é poeta. Sorri-me. Tem 96 anos cumpridos. Diz-me de ímpeto que sabe de cor e salteado dezenas de poemas do seu conterrâneo José María Gabriel y Galán (1870 – 1905).

— O poema dele de que eu mais gosto é “El Embargo”. Quer ouvir? — indaga, com boa disposição.

O ancião mede-me de alto a baixo e, sem esperar pela resposta, põe-se a declamar o poema em castúo, um dialecto da Estremadura espanhola.

— Señol jues, pasi usté más alanti… (Senhor juiz, passe mais adiante)

Saboreio a recitação com deleite, que remédio. Dou comigo a pensar nos meus amigos poetas: o moçambicano Virgílio de Lemos (1929 – 2013) e o galego Alfonso Armada (Vigo, 1958).

— Tenho uma memória fantástica. Sei uma data de poesias. Não tenho é aqui a carteira comigo. Dava-lhe os títulos todos…

— É tudo de José María Gabriel y Galán?

— É quase tudo dele. É pois...

— Antonio Machado, Federico García Lorca, Rafael Alberti, Rosalía de Castro…

— Não. Não...

Encontro com Tío Ángel, o poeta (à esquerda na foto), e Tío Isidoro, o irmão ex-Guardia Civil.
Foto: Rui Araújo

Por descargo de consciência, opto por cumprir o papel de jornalista. E inicio a singular entrevista. O meu parceiro, Rui Pereira, profere um lacónico “Estou a gravar”, os olhos postos no viewfinder da SXS. Ele sabe, bem entendido, que não podemos perder tempo.

— Nascido e criado em Pescueza. Éramos agricultores humildes. Lavradores. O amanho da terra. As árvores, a apanha das bolotas e essas coisas todas quando deixámos de ir à escola. Também gostávamos do gado. Tínhamos porcos para as matanças, para essas coisas, e ainda uma junta de vacas e isso.

Em Pescueza, “todos encarreiravam para a lavoura e a pastorícia” (diria Aquilino Ribeiro depois de “El hombre que mató al diablo” na Novela Semanal, em Madrid. O romance O homem que matou o diabo” só foi publicado em português alguns anos depois.).

Uns anos depois, Aquilino Ribeiro publica em Portugal "O homem que matou o Diabo"
Foto: Captura de ecrã

Tío Ángel era um aldeão mais igual aos outros. O seu mundo era lavoura e o gado. E a leitura. A poesia, sobretudo. Ele devorava poesia.

A sua casa não era das mais ricas do lugar. Era apenas uma família remediada e honrada que não aspirava a mais nada do que a ser isso mesmo...

— Era feliz aqui?

— Pois era. E continuo a ser feliz na minha casita… — diz a sorrir.

— Um velho feliz… — exclamo ou pergunto, pouco importa.

— Sim...

A reposta, decididamente, não me convence. Experimento de novo.

—  Um velho feliz…

Ele não se ofusca com a minha insistência.

— A verdade é que a solidão me mata! Morreu-me a mulher há quatro anos. Estávamos casados há 65...

Escuto, calado. Não tenho outra saída. O ancião segura uma bengala, que mais parece um cajado.

— Casados, eh! E fomos muito felizes! Foi a única rapariga de quem gostei. Éramos os dois daqui. E já está... — conclui.

Palavras do jornalista Raul Brandão (1867 – 1930) a propósito de outro amor da mesma casta: “Um dia destes temos de nos separar, e é natural que seja eu, que sou mais velho, o primeiro a partir... Antes, porém, quero dizer-te que te devo o melhor da vida.”

Daniela Goméz Martín, a mulher de Tío Ángel, partiu primeiro. Faleceu em 2017.

 — O que é a morte para o senhor?

 — O que é a morte para mim? Eu não devia dizer isto, mas há aqui pessoas… Prefiro a morte. Sim. Porque aquilo não é viver. Viver assim não é viver. Terem de dar-te a comida, terem de lavar-te, terem de…

Ángel é homem de carácter. Respondo-lhe com um silêncio amargo. A velhice deforma-nos. Pior: a dependência. Tal como a solidão imposta ou, por outras palavras, a morte social.

Isidoro, o seu irmão mais novo, nem sequer pestaneja. Há separações dolorosas. E há a morte, que dá plenamente sentido à vida e não devia deixar ninguém indiferente.

— Vidas assim, não lhes dou nenhum valor. Isso não é viver. Quando chegar a esse estado, não vou suicidar-me, mas...

— E qual é a maior alegria, hoje, para si?

Tento cumprir o papel de jornalista, mas é caso para dizer “Aqui-d’el rei”. A pergunta é incómoda. Ignoro qual será a reacção. Feitas as contas, o velho engoia-se como pode no banco, pensativo.

— A maior alegria para mim seria uma companheira, pelo menos, durante a noite…

— Em quartos separados… — pergunto ou insinuo com um sorriso sardónico nos lábios.

— Isso já não faz falta... — profere.

— Nunca se sabe… — returco em tom de provocação.

O idoso espraia o olhar pelo pátio vazio e desata a rir à gargalhada. De facto, é poeta mas não tem cara de pinga-amor.

— Mas o que é que queres dizer com isso?

Há sempre coisas dignas de serem saudadas, creio.

— Ouve lá, vou dizer-te uma coisa…

— Diga lá.

— Eu digo. Para o que é que eu quero uma mulher? É para companhia. É para falar. No que diz respeito ao sexo, nada.

— E o amor?

— Homem, o amor é o melhor que há se é um amor verdadeiro. É o melhor. Um amor bom. Fui muito feliz com a mulher. Muito feliz porque fizemos uma boa combinação. Eu é que mandava lá em casa. Ela fazia o que queria em matéria de gado. Havia momentos em que me zangava, mas… A solidão mata-me. Há quatro anos morreu-me a mulher. Estávamos casados há 65 anos. Casados! Pois é... — conta Ángel Martín Sánchez.

Ele arqueia os ombros e mete-se a rir. Deixo-o dar largas à alegria.

— Este português é danado para a brincadeira...

Os poetas têm sempre razão. Topo a frase anónima pintada em letra amarela no banco roxo do meu querido artista. "O prazer é a flor que floresce, a recordação o perfume que perdura". Seja… Mas, nada é eterno e como escreveu Raul Brandão "o que aqui conserva um carácter eterno são as árvores, os montes e o trabalho no campo e nas eiras, que à força de ser transmitido — sempre os mesmos gestos — adquiriu uma beleza extraordinária, entranhada até ao âmago nos vivos e nos mortos."

É assim. Tío Ángel, o poeta de Pescueza, partiu umas semanas depois de eu o entrevistar. Partiu porque as pessoas só morrem mesmo quando já ninguém se recorda delas.

ESTA TERRA É PARA VELHOS

 

Pescueza, uma vila espanhola sem lares de idosos.
Foto: Rui Araújo

 Pescueza, Província de Cáceres, Estremadura.

À primeira vista este povoado rústico do século XV parece igual a tantos outros da planura envelhecida e olvidada, mas não é: aqui, não há lares de idosos. Os velhos vivem nas casas onde ergueram telhado...

Mais uma vila que parecia estar condenada a desaparecer como tantas outras dos dois lados da raia...

Hoje, Pescueza já só tem 152 habitantes. E praticamente metade tem mais de 65 anos de idade.

Louvado seja o programa "Quédate con nosotros" (Fica Connosco) que foi criado para impedir a morte (absurda da vila) e, do mesmo modo, dar uma vida melhor porventura mais digna  e mais autónoma aos seus velhos.

"Quédate con Nosotros" é um projecto que, ao fim de 10 anos de trabalho, evidenciou simplesmente o interesse que tem aquilo a que chamamos agora a Espanha esvaziada as zonas despovoadas, o mundo rural... de... de se criar uma nova organização dos serviços de proximidade. explica Constancio Rodríguez Martín, Presidente da Associação Amigos de Pescueza.

A ideia (inovadora!) é não mandar os velhos para os lares. Não os há, aliás, aqui. E não são precisos!

Por aqui dizem com orgulho que o Festivalino é o festival mais pequeno do mundo. Foi criado em 2008. Desde então, passaram por Pescueza grandes artistas de Espanha como La Oreja de Van Gogh, Amaral, Manuel Carrasco ou Revolver.

A prioridade era dar vida à povoação e, por outro lado, fomentar a  interacção com os idosos.

Há três anos apareceram no Festivalino mais de 10 mil pessoas.

A Associação dos Amigos de Pescueza começou, entretanto, em 2011 a implementar com o apoio da Junta da Extremadura, a União Democrática de Pensionistas (UDP) e o município, o modelo de uma terra sem lares. Nem mais!

A gente... A gente da nossa vila precisa de continuar a viver onde viveu toda a vida. Criarem à sua volta o lugar mais decente para continuar a desfrutar não só da casa, não só da localidade, da loja, dos vizinhos, dos amigos e da horta. acrescenta Constancio Rodríguez Martín.

Pescueza permitiu a muitos idosos permanecerem nas suas casas, o lugar onde sempre viveram.

Facilita-lhes a vida. E de que maneira…

Aqui, um corrimão nas paredes das casas.

Ali, um passeio azul para os andarilhos com anti-derrapante.

Tudo isto nos itinerários mais frequentados: igreja, consultório e centro de dia.


Pescueza - mais uma povoação confrontada com o despovoamento...
Foto: Rui Araújo

Pescueza é segundo o Banco de Espanha um dos 158 municípios da região que podem desaparecer a longo prazo se não for invertida a dinâmica populacional.

Há 3 mil e quatrocentas localidades espanholas confrontadas, hoje, com o mesmo problema.

Dizem que o primeiro sintoma da morte de uma localidade é o encerramento da escola. Quando se fecha a escola começa a haver falta de quê? De crianças! Não há crianças. O sintoma seguinte é quando os comércios desaparecem. O lugar tem cada vez menos gente que recorre aos comércios, que, por sua vez, deixam de dar lucro. E depois, definitivamente, o derradeiro sintoma, o mais grave, aqui, na nossa região, é o encerramento dos cafés porque são o centro social e o ponto de encontro das pessoas. São uma necessidade nas povoações. Quando já não há pessoas deixa de haver serviços públicos como a escola, os centros de saúde, o banco e os Correios. Os sintomas da morte definitiva, quando deixa de haver serviços públicos ou município, serão esses. afirma José Vicente Granado Granado, Director do SEPAD (Servicio Extremeño de Promoción de la Autonomía y Atención a la Dependencia).

Centro de Dia de Pescueza.

Meia manhã de mais um dia como os outros.

Só aparece, aqui, quem quer ou quem precisa de algo.

O local está aberto das 8:30 da manhã até às 9:00 ou 9:30 da noite. E adapta-se às necessidades de cada pessoa...

Montaña Llanos Llanos prepara o almoço do pessoal e o petisco de hoje promete: “patatas marineras” (batatas com gambas, mexilhões, ameijoas e peixe) e “de segundo”, como se diz em Espanha, bifinhos de porco.

O maior desafio que temos, aqui, neste centro é que as pessoas permaneçam o maior tempo possível na sua casa. Para isso, prestamos-lhes uma série de serviços como, por exemplo, as refeições, os duches, podem vir cá tomar duche, o serviço de lavandaria, também os acompanhamos ao médico e às consultas, não só na vila como nas cidades que estão perto, e, para tal, dispomos de este projecto "Fica Connosco", que consiste em que eles permaneçam, enquanto for possível, nas suas casas, porque aquilo que as pessoas de idade desejam é permanecer o maior tempo possível na suas próprias casas. Há muitas mulheres que perderam o companheiro e é ainda o sentimento de solidão. Nós, aqui, também as acompanhamos nesse processo de solidão que passa, por vezes, pelo luto, um pouco para... não ficarem, se calhar, sem ninguém, sem qualquer apoio... É gente que  não tem filhos e, para isso,  temos também uma psicóloga que vai ainda a casa das pessoas e as vai apoiando. Sandra Díaz García, Directora do Centro de Dia.

Todos os dias há actividades : aulas de ginástica (como a de esta manhã), ateliers de nutrição ou de fabrico de sabão, sem falar nas sessões de emoção, que é como quem diz da memória.

A Associação Amigos de Pescueza presta agora auxílio a 30 e tal idosos.

O sol está a pino.

Daqui a bocado é a hora do almoço no Centro de Dia.

No entrementes Herminia Sansón Martín meteu de arrancada para o olival à saída da vila. A sós com os seus botões, claro… Tem 82 anos. Vive em casa sozinha. Perdeu o marido há 21.

Hoje é dia de cortar o “moito”, o pé-de-burro, os rebentos das oliveiras mais ramalhudas.

Tem o pé leve mas labutou uma vida inteira de sol a sol ela… mais o marido, que era operário na Seat, em Barcelona.

Com o andar dos tempos Tía Herminia começou a dar mais valor a estes parcos instantes de paz. E às oliveiras. No ano passado produziu 79 litros de azeite. 

Madre, yo tengo un novio aceitunero,

que vareando tiene mucho salero.

Cuando me ve, me dice:

- Voy a morir por ti.

Madre, yo tengo un novio aceitunero.

¡Aceitunero me gusta a mí!

Dale a la vara,

dale bien, que las verdes

son las más caras

y las negras “pa” mí.

Tiri tiri tiriri.

(NOTA: Amália Rodrigues chegou a cantar “Los aceituneros” em espanhol. A música pode ser escutada aqui: https://www.youtube.com/watch?v=D7iYhEWNAfI).

Pescueza é um povo que sempre viveu da lavra e da pastorícia.


E Portugal ali tão perto...
Foto: Rui Araújo

No Centro aberto – que acaba por ser uma autêntica plataforma de serviços – há mais uma actividade: a preparação da azeitona, que tem muito que se lhe diga.

O almoço só é servido à uma da tarde.

Ficamos a observá-los como quem não quer a coisa.

Tía Antonia, de olhos a luzir, tira da memória uma cantiga de amor com

um azeitoneiro.

A melopeia sentimental prossegue.

¡ Ay! Me estoy muriendo por ti.

¡ Ay ! Desde que te conocí.

Estando en la aceitunera él me decía

con palabritas dulces que me quería,

se acabó la aceitunera y no lo he vuelto a ver.

Madre, yo tengo novio aceitunero.

¡Ay, que se muere por mi querer!

O segundo serviço é daqui a uma hora, às 14.

A sala de jantar está silenciosa. A euforia do viver não é para aqui chamada…

O Centro conta com 12 auxiliares, uma enfermeira, uma psicóloga, uma cozinheira, um administrativo, um monitor de desporto  e uma directora (que é terapeuta ocupacional) para cuidar dos seus anciãos.

A atenção é essencial para os idosos porque para além dos cuidados de enfermagem eles precisam de cuidados humanos. Necessitam de ser bem tratados. Com carinho. Com humanidade...

E a solidão dos anciãos?

A solidão dos anciãos é uma questão muito delicada que requer muito carinho da nossa parte, muita atenção, muito apoio, para que eles se sintam queridos e saibam que estamos sempre aí para os atender. Nós, aqui, tratamo-los como se fossem da nossa família. Cuidamos das suas necessidades tanto dentro como fora do centro e ainda nas suas casas. Tentamos assumir um papel mais de família e não só de mera assistência. declara Raquel García Borrero, Enfermeira.

Daqui a bocado é o momento da ocupação útil e, sabe-se lá, espiritual: “la siesta”. Os camponeses madrugam e há hábitos que nunca se perdem...

Tío Isidoro.

Está quase na casa dos 90. Foi militar da Guardia Civil. Meto conversa com o ancião.

  O senhor não tem cara de Guardia Civil...

  Não tenho cara? Mas corpo, sim. (RI-SE) Eu entrei para a Guardia Civil com dificuldade porque não tinha estatura suficiente... De maneira que tive problemas, mas só por ser pequeno. E, por fim, deram-me... Deram-me como apto. Já somos história porque em relação à alegria tenho muito menos porque... a idade não perdoa. Os anos não perdoam. É o que te... Não se escapa ao tempo... E é cada vez, pior. Cada vez, pior. Bem...

   O senhor pensa na morte?

   O quê? Sim, penso na morte, mas o que é que eu posso fazer? Ela chegará quando chegar. Não tenho pressa. (RI-SE) Eu procuro viver a vida aqui e mais nada. E é assim!

O tempo é implacável. E de nada serve atamancar o passado.

A vida tem de ser encarada como aquilo que é (no presente!), independentemente do temperamento e das quimeras de cada um.

Muitas vezes o pior até nem é a regressão.

É a gente acabar no ermo.


Tío Pío - a solidariedade da raia é feita de gente assim...
Foto: Rui Araújo

Tío Pío.

78 anos. Solteiro. Nascido e criado em Pescueza.

Ajudou muitos portugueses há para aí 60 e muitos anos, quando era guardador de rebanhos.

Quando tinha 15 anos... 15 anos, 14, 15... costumavam aparecer portugueses de noite por aí, pelo campo, levavam 20 ou 25 quilos de café às costas. A tremer de frio. Passavam frio. A água chegava-lhes até aqui acima. Molhavam-se bem molhados... Eu dormia com o gado no campo e os que passavam, "vem cá", levantava-me, fazia uma fogueira, já tinha a lenha preparada para fazer uma boa fogueira, aqueciam-se... recorda o velho pastor, Tío Pío Ramos Peréz. 

Nos anos da fome, “los años del hambre” (como ainda se diz cá), os contrabandistas portugueses corriam estas terras malfadadas e governavam-se. Traziam café e levavam açúcar, fazenda e bolachas para as suas aldeias.


Sem gente no interior, não somos nada...
Foto: Rui Araújo

Verdade verdadeira, da fraternidade de antigamente já só resta a memória dos velhos, que sabem o que custava a vida. Mas o pior para esta gente ainda é capaz de ser a solidão…

A solidão é o pior que há. Metes-te em casa à noite, sozinho... Penso muito de noite... Pois, penso em tudo. Que pode acontecer-me qualquer coisa. Que pode acontecer qualquer coisa e coisas assim, mas isso depois passa...

E tem um sonho? Uma quimera?

Pois, não. É um dia de cada vez e mais nada. É um dia de cada vez e mais nada.

Tío Pío é um homem só.

A solidão imposta  ou a morte social  é sentida como um castigo.

A solidão é um dos grandes flagelos do século XXI. É agradável se a pessoa a escolhe, é uma opção. Mas pode ser tremendamente dura quando é uma obrigação. E, hoje em dia, há cada vez mais idosos... Há povoações com pouca população e a solidão é, muitas vezes, uma obrigação. Creio que recebo mais deles do que lhes posso dar, mas o mais difícil, quiçá, seria ter consciência dessa solidão, quando a pessoa não a quer... É bonito. É gratificante, mas o mais difícil seria talvez isto: sabermos que essa pessoa não quer essa solidão e tem de lidar com ela dia após dia...

A parte humana é a prioridade?

Sim, claro. Sim, sim, sim... É o motor do projecto, sem dúvida. conclui Noelia Galán, Psicóloga.

Duas e meia.

É trigo limpo.

Tío Isidoro, que estava à espera de boleia para ir dormir uma soneca a casa, sai do Centro de Dia.

Trini, a auxiliar, faz de motorista do carro eléctrico da Associação Amigos de Pescueza. E de amiga ou confidente do velhote...

Centro de Dia. 

Mais uma história que é ao mesmo tempo a da Península Ibérica.

Eu tinha uma loja e o meu marido era sapateiro. Ele trabalhava no piso de cima e eu tinha a loja em baixo. Os portugueses apareciam com o café de mochila às costas e nós comprávamos-lhes três ou quatro quilos porque não podíamos comprar muito... Eu é que o vendia. Moía o café e depois vendia-o  às pessoas por cinco ou 10 pesetas. E açúcar também 10 pesetas ou cinco porque havia falta de açúcar. E os portugueses vinham de noite. É isso que quero dizer-lhe. Avisavam logo em que semana vinham e... vamos lá a ver... tínhamos a porta fechada e a luz apagada... para a Guardia Civil... se aparecesse... não se dar conta que estávamos ali.  Iam para cima e fechava-se a porta. Eu ficava em baixo, cheia de medo, e o meu marido consertava o calçado. E uma vez encomendaram-lhe camisolas interiores de Inverno. E um deles vestiu cinco camisolas, umas em cima das outras. Porque se as levassem vestidas não ficavam sem elas...

São os únicos portugueses que...

... lá para os lados da raia.

Mas são os únicos que a Senhora conheceu...

Sim. Sei como se chamam e tudo...

Como é que eles se chamavam?

Um chamava-se João... E outro José Domingos e outro Felizário ou Feliz...

Felizardo?

ꟷ Felizário e João era o irmão dele. Era o irmão dele... Tía Constantina Rodríguez Llanos, 94 anos, Comerciante aposentada.

Os contrabandistas não andavam em magotes, mas precisavam de ter sorte.

Seja como for, numa hora de aperto espanhóis e portugueses nos dois lados da fronteira eram solidários.

Espanha é um país com inúmeros povoados pequenos, são localidades e comunidades, que respondem à mesma idiossincrasia que Pescueza. Pensamos, por outro lado, que Portugal, é um país que partilha connosco um monte de similitudes culturais, sociais e económicas muito importantes, mas também é possível fazer com que este projecto arranque e tenha um enraizamento profundo em Portugal. A partir de "Quédate con Nosotros" da Associação Amigos de Pescueza, fazemos uma proposta franca, sincera e comprometida para que qualquer iniciativa que consiga atrair o... ...o interesse das comunidades de Portugal na implementação de um projecto semelhante na sua... ...o seu quotidiano, em desenvolver um novo cenário do que falamos há tanto tempo... propõe Constancio Rodríguez Martín, Presidente da Associação Amigos de Pescueza.

Ignoramos quase tudo do viver e morrer destas pessoas, dos seus sentimentos e costumes (como diria o mestre Aquilino Ribeiro).

Fim da viagem a Pescueza. Terra de velhos extraordinários…

Amanhã, chove a potes.

Rui Araújo

Esta reportagem foi publicada na CNN Portugal e emitida na TVI em 16 de Fevereiro de 2022.

O texto também foi publicado em Espanha no jornal FRONTERAd (Madrid).

LINKS:

https://cnnportugal.iol.pt/espanha/pescueza-esta-terra-e-para-velhos/20220216/62010b160cf21a10a41deb14

https://www.fronterad.com/pescueza-esta-tierra-es-para-viejos-soledades-en-la-frontera-lusoespanola/