DA RÚSSIA COM AMOR: OS DIPLOMATAS EXPULSOS, ESPIÕES E OS OUTROS QUE SE SEGUEM…

 


A invasão da Ucrânia pela Rússia, iniciada a 24 de Fevereiro de 2022, levou a uma vaga de expulsões de diplomatas em vários países — incluindo Portugal. Não é primeira vez.

Viagem pela história recente, pelo jornalista Rui Araújo

O governo português expulsou 10 "funcionários" russos considerados "personæ non gratæ" no passado dia 5 de Abril de 2022. O ministro dos Negócios Estrangeiros, João Cravinho, considerou que foi "a decisão adequada" porquanto desenvolviam actividades "contrárias à segurança nacional" que eram "contraditórias com o seu estatuto diplomático".

A expulsão de, pelo menos, 394 russos nos países ocidentais desde o início da invasão da Ucrânia, em Fevereiro de 2022,  é sobretudo uma operação concertada dos países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e da União Europeia (UE).

Com efeito, 24 dos 30 Estados membros da OTAN expulsaram agentes secretos russos. Alguns Estados europeus, que não integram a organização (como a Suécia, a Áustria ou a Irlanda), fizeram o mesmo.

A expulsão de diplomatas genuínos e de espiões (permitida, aliás, pelo Artigo 9.º da Convenção de Viena desde 1961) não é inédita, mas esta é quantitativamente a mais importante desde o final da Guerra Fria.

A anterior ocorreu em 2021. A República Checa expulsou 63 diplomatas russos. Os oficiais dos serviços de Informações estão associados a duas explosões num paiol de munições, que fizeram dois mortos.

Em 2018, os EUA e seus parceiros da OTAN expulsaram dezenas de diplomatas e espiões russos depois de Moscovo ter recorrido a substâncias químicas (agentes nervosos) para assassinar o agente duplo, Seguei Skripal, ex-coronel do serviço russo de informações militares GRU, e a sua filha, em Salisbúria (Grã-Bretanha).

Os serviços britânicos associaram este caso ao homicídio, em 2006, do ex-agente do KGB (denominado FSB em 1995), Alexander Litvinenko, que foi assassinado com polónio-210 (radioactivo), em Londres.

Foram, então, expulsos mais de 150 oficiais de Informações em 20 países.

O MNE não divulga a identidade nem a natureza das actividades dos 10 russos expulsos de Portugal, denominados propiciamente "funcionários". Também não se pronuncia sobre uma eventual retaliação russa (expulsão de diplomatas portugueses em Moscovo).

Tanto a embaixada da Federação da Rússia (Lisboa) como o ministério russo dos Negócios Estrangeiros (Moscovo) não responderam às perguntas da CNN Portugal.

PORTUGAL 1982

É a maior vaga de expulsões que teve lugar em Portugal. No espaço de três meses, em 1982, o governo da Aliança Democrática (AD) exigiu a "partida antecipada" de 16 diplomatas da então URSS e de outros países do Leste.

A Europa expulsou nesse ano 25 dos 34 representantes da União Soviética acusados, então, de espionagem. Um ano depois, em 1983, este número subiu para 148.

21 "diplomatas" do Leste foram obrigados a deixar Portugal entre Abril de 1974 e 1982 ao abrigo do artigo 9.º da Convenção de Viena. URSS, 12; RDA, 3; Polónia, 3; Checoslováquia, 2 e Cuba, 1.

Flagrante delito de espionagem - A Leste nada de novo…

Lisboa, Abril de 1980.

Igor Alexandrovich Evlampiev, Tenente-Coronel da Força Aérea e Adido Militar da União Soviética, estaciona o Citroën CX prateado na Avenida 5 de Outubro, em Lisboa. A mulher, Nelly, e o neto acompanham-no. Depois de verificar que não está a ser seguido, Evlampiev atravessa a artéria e penetra com a família no supermercado Pão de Açúcar. Depois das compras, o casal regressa ao apartamento na Rua Eiffel, número 15.

O espião Igor Evlampiev e Nelly, a mulher, em Lisboa. 
Foto: DR

Evlampiev volta a sair. Para evitar ser seguido — e quiçá por uma questão de hábito — opta pelo itinerário menos directo. Começa por um passeio na zona da Feira Popular. Em seguida, mete-se no carro e desaparece. Cerca das 19:30, abandona o veículo e dirige-se a uma das paragens de autocarro de Entrecampos. Ao fim de um quarto de hora, muda de lugar. Entra no supermercado Modelo e queda-se entre portas, a olhar para o exterior. A seguir, dá mais uma volta. Entra no automóvel e regressa a casa.

— Foi muito certamente para reconhecer um local ou avistar-se com algum "contacto" e o encontro falhou… — conclui um seguidor da Divisão de Informações (DINFO) do Estado-Maior General das Forças Armadas (EMGFA).

Passada uma semana, Evlampiev vai de novo às compras com a família ao mesmo supermercado. Enquanto Nelly e o neto enchem o carrinho de compras, Evlampiev passeia com ar preocupado. Procura detectar eventuais seguidores, em vão.

Apesar do peso dos anos, o espião soviético (nascido a 24/9/1928) sobe as escadas até ao primeiro andar, sem grande esforço, carregando os sacos. Espreita pela janela e sai cinco minutos mais tarde. Deambula pelas ruas da capital mais de meia hora e estaciona o carro no mesmo local da semana anterior. Dirige-se à mesma paragem da CARRIS, os olhos pregados no relógio. Está adiantado. Pelo sim pelo não, dá uma volta à praça e mergulha na boca do metropolitano da Avenida da República. Desce até ao cais e dá meia volta.

O espião Igor Evlampiev: duas vezes no mesmo local em dias certos. 
Foto: DR

Envolto numa samarra castanha, um português de meia idade, conhecido do serviço de Informações, caminha a passos lentos, mas compassados, rumo a Evlampiev. Um militar da DINFO assiste à cena. Os dois homens disfarçam, mas têm encontro marcado. Ao cruzar-se, estacam e abraçam-se efusivamente. Aí, Evlampiev espalma a mão larga no ombro do seu "contacto" e obriga-o a mudar de sentido. Andam, assim, uma centena de metros até se separarem brusca e friamente. Esboçam apenas um discreto cumprimento de despedida e cada um segue o seu caminho.

Evlampiev terminara a sua jornada de trabalho e até certo ponto a sua actividade em Portugal. Tinha sido apanhado em flagrante delito de espionagem. Cometera o erro de estar duas vezes no mesmo local em dias certos. O excesso de confiança é imperdoável, sobretudo para uma alta patente do serviço militar de informações GRU.

O espião foi, entretanto, promovido a Tenente-General e destacado para Paris. Exerceu as funções de Adido Militar. Foi a sua terceira presença em terras de França (1960-1964, 1969-1974 e depois de 1980), acompanhada de perto pela Direction de la Surveillance du Territoire (DST), a contra-espionagem francesa e a DINFO, entre outras.

Em 1982, o governo da AD expulsou 16 diplomatas de países do Leste (oito da ex-URSS e outros tantos do Bloco do Leste) por razões que os militares consideraram politicamente correctas, mas tecnicamente erradas. 

Com efeito, os 16 agentes estavam "marcados" assim como os seus respectivos contactos enquanto que os inevitáveis substitutos implicavam o recomeço de todo o processo de investigação e localização.

Aeroporto da Portela, 4 de Maio de 1982: os "diplomatas" checos abandonam Portugal.
Foto: ANOP

Contra-espionagem - uma operação dos checos

Corre o mês de Fevereiro de 1982. 

Os "diplomatas" checos Jan Janik e o seu adjunto Ladislav Kolackovsky instalam-se, tranquilamente, no Grande Hotel Batalha, no Porto, e contactam pessoas ligadas ao PCP. Os dois homens recebem as "visitas" durante escassos minutos. Não lhes interessa perder tempo com palavreado inútil nem mendigar intimidades que sabem de antemão impossíveis.

Os militares da Divisão de Informações (DINFO) do Estado-Maior General das Forças Armadas (EMGFA) que efectuam o seguimento, associam os encontros à situação política do momento e decidem apertar a vigilância. Os checos abandonam a capital nortenha na manhã seguinte e dirigem-se a Viseu, onde se instalam no Hotel Grão Vasco. Janik e Kolackovsky mandam chamar os seus "contactos" e a cena do Porto repete-se.

Os checos não estão contentes com a forma com que a Greve Geral (marcada para 12 de Fevereiro, a primeira desde a Revolução dos Cravos) convocada pela CGTP (com a oposição da UGT) está a ser preparada. Fazem algumas "sugestões" práticas. Os planos existem. E são para ser seguidos à letra. Garantem que não há lugar para amadorismo e que já estão fartos de brincadeiras. A "palestra" é escutada pelos militares da DINFO.

O embaixador da República Socialista da Checoslováquia, Jan Janik, e o seu secretário, Ladislav Kolackovsky, são expulsos de Portugal a 4 de Maio de 1982, considerados "personæ non gratæ". Um motorista da delegação checa, Stanislav Kejmar, é aconselhado a sair do país nesse mesmo dia.

Os checos tomam medidas de retaliação e expulsam de Praga o embaixador Baptista Martins.

1982 — Nem todos os espiões são expulsos. O indivíduo de óculos à direita na foto é um deles. 
Foto: ANOP

Um caso de espionagem que podia ter tido repercussões semelhantes ocorreu pouco tempo depois. 

Dois outros "diplomatas" checos, o Adido Militar e Aeronáutico, Tenente-Coronel Vladimir Mohyla, e o seu adjunto, Major Vladimir Mitás, tentaram aliciar militares portugueses para obter documentos secretos da OTAN. Pertenciam à StB checa (Státní Tajná Bezpečnost), o departamento de segurança do Estado, mas...

Portugal — o antigo paraíso dos espiões

Portugal já não é o paraíso dos espiões da Segunda Guerra, mas ainda continua a ser um país aberto para muitos operacionais dos serviços secretos estrangeiros (incluindo os do Ocidente!) com cobertura diplomática ou consular e não só.

"A Direcção da contra-espionagem do SIS é a DO 3, que sofreu mudanças significativas há uns anos, quando uma directora foi afastada a pretexto da sua mentalidade de Guerra Fria. Na DO 2 e na DO 4 também houve algumas mudanças…", disse uma fonte ligada ao mundo das Informações que solicitou o anonimato.

Segundo o SIS, "em Portugal, existem dois Serviços de Informações: o Serviço de Informações de Segurança (SIS) e o Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED)". O SIS "atua em território nacional, contribuindo para a salvaguarda da segurança interna através da prevenção da sabotagem, do terrorismo, da espionagem (NDR: "clássica"), da criminalidade organizada, da proliferação e das ciberameaças, bem como da prática de atos que, pela sua natureza, possam alterar ou destruir o Estado de Direito constitucionalmente estabelecido."

Para o serviço português de Informações, "o reconhecimento da necessidade de criar um sistema de informações foi largamente influenciado pela sucessão de atentados registados em território nacional:

Em 1979 o atentado à Embaixada de Israel que se saldou em um morto e vários feridos;

Em 1981 o assassinato do adido comercial da Embaixada da Turquia por um comando arménio;

Em 1983 regista-se o assassinato de Issam Sartawi, em Montechoro/Algarve e em Julho desse mesmo ano um comando arménio ataca a Embaixada de Turquia, do qual resultam 7 mortos (NOTA: Uma história mal contada até hoje...).

O referido contexto, coadjuvado pela primeira revisão constitucional, de 1982, pela extinção do Conselho da Revolução e pela subordinação do poder militar ao poder civil, bem como a publicação da Lei de Defesa Nacional tornaram-se factores decisivos para a futura criação de um sistema de informações nacional, que se viria a constituir à luz da Lei-Quadro do Sistema de Informações da República Portuguesa (Lei-Quadro 30/84)".

O SIS iniciou funções em Fevereiro de 1986, sob a Direcção de Ramiro Ladeiro Monteiro.

Há quem questione, por exemplo, o facto de um serviço de Informações ter nas suas funções a pesquisa de dados sobre criminalidade organizada, independentemente da reconhecida qualidade dos seus homens e mulheres.

A sabotagem, hoje, está, por outro lado, sempre incluída no terrorismo.

Os objectivos da actuação do SIS baseiam-se num conceito OTAN com décadas.

E depois do adeus - a retaliação continua

A retaliação de Moscovo começou pouco depois das primeiras expulsões de agentes secretos russos do Ocidente.

Foram considerados "personæ non gratæ" diplomatas da Alemanha, Bulgária, Holanda, Japão, Missão da União Europeia em Moscovo, Noruega, Polónia. A lista não é  exaustiva.

Portugal é o país que se segue?

Rui Araújo

CNN Portugal - 6 de Maio de 2022

LINK:

https://cnnportugal.iol.pt/guerra/ucrania/da-russia-com-amor-os-diplomatas-expulsos-espioes-e-os-outros-que-se-seguem/20220507/62755f910cf2f9a86ea2791a

NOTA POSTERIOR: A actuação do GRU e FSB em Portugal continua a ser uma realidade. Militares portugueses foram, aliás, alertados para a vulnerabilidade do país face a uma operação russa nos... 


CRUEL AGOSTO

 


No Verão de 2013 morreram na Serra do Caramulo bombeiros por causa de um fogo de origem criminosa.

— 29 de Agosto (de 2013) começou com uma manhã igual a muitas outras... Mais um dia numa altura em que temos muitos incêndios. Mais uma chamada como muitas outras para um incêndio no Caramulo.

 — O incêndio começou às 09:53. Começou muito forte. Lembro-me de ter enviado para lá o helicóptero de Santa Comba Dão. E quando cheguei aqui à sala, apercebi-me que isto estava tudo muito mau. Foi muito rápido. Tudo muito rápido. Começou muito forte. Achei que foi das piores horas que vivi nesta sala. Depois de Alcafache, foi o pior.

Aquelas mortes abalaram a vila toda. Abalaram, além dos bombeiros, a vila toda. Todas as pessoas não deixavam de falar nos dois meninos. Nos nossos bombeiros.

Continuam a ser heróis porque estão cá na mesma dentro de nós, mas... Mas é muito complicado para uma pessoa tirar isto da cabeça. Muito complicado...

Foto: Rui Araújo

Serra do Caramulo.

Cai a tarde, serena. Agora, aquilo que resta do arvoredo e do mato é uma paisagem petrificada, cinzenta, mutilada.

O resto, aquilo que é invisível ao olhar, é desgraça, amargura e dor. A mesma mágoa de sempre, que atiça os ressentimentos. A morte é a morte! E, aqui, morreram dois miúdos. E nós, estremunhados, acabamos por render-nos ao absurdo. Recusamos a fatalidade da morte. Não há aconhego que nos valha, nem o luto sequer. Mas não perdemos o sentido da realidade.

Dois jovens bombeiros perderam, aqui, nesta curva a vida. Era uma missão que lhes infundiu coragem, mas que acabou por ser uma cilada. Não havia salvação. Foram sacrificados para nada, mas o destino a cumprir, esse, cumpriram-no anónima e humanamente.

29 de Agosto. São Marcos. Muna. Santiago de Besteiros. 09:53 da manhã. É este o cenário...

Preciso urgentemente de meios aéreos. O fogo está a bater nas casas! Nós não temos acesso. Não conseguimos passar para lá. Preciso urgentemente de meios aéreos. — grita um bombeiro de rádio na mão.

A Serra do Caramulo está em chamas.

Mas a história começa antes. Mais exactamente na noite de 20.

Eis o filme de um fogo que até agora já matou, aqui, quatro bombeiros e deu cabo da vida de dois outros jovens, sem contar com a destruição e não foi coisa pouca. Hectares e mais hectares de floresta, pinheiro, carvalho, eucalitpo sobretudo. Mato: muita giesta e carqueja.

20  DE AGOSTO

23:57

Faltam três minutos para a meia-noite quando um popular alerta, via 117, o CDOS de Viseu  — é o Centro de Operações de Socorro — para um incêndio perto da aldeia de Nogueira de Alcofra.

21DE AGOSTO

00:25

Passados 28 minutos, a sala de operações do CDOS recebe outra chamada. Mais um incêndio, desta vez é na freguesia de Silvares. É fogo posto. Só pode ser, mas já lá iremos.

São despachados meios para uma primeira intervenção no local, mas os bombeiros não conseguem dominar as chamas.

22 DE AGOSTO

15:30

A Serra do Caramulo continua a arder. Há um bombeiro desaparecido. É dado o alerta.

22 DE AGOSTO

18:00

A bombeira Ana Rita Abreu Pereira dos Voluntários de Alcabideche, uma corporação dos arredores da capital é encontrada carbonizada. Tem 24 anos. Hora do óbito: 15:46. Nessa mesma tarde são encontrados bombeiros feridos. Alguns são evacuados de helicóptero. Bernardo Figueiredo do Estoril é um deles. Tem 23 anos. Morre passados cinco dias. Não resiste às queimaduras.

29  DE AGOSTO

09:53

Era uma vez os horizontes infindos apesar da luz da manhã.

Cinco bombeiros de Carregal do Sal avançam por este caminho exíguo, fugídio e pensoso — é sempre a subir, curvas e mais curvas seguidas. É sempre a subir. É o único acesso, está tudo dito. As horas passam, aqui, lentamente porque as chamas continuam a propagar-se serra adentro. É preciso voltar, mas o raio do fogo, covarde, sem dono, tem, por vezes, a última cartada mesmo quando já perdeu a guerra.

O grande ditador dos incêndios é o clima. Quando nós temos temperaturas aí nos 30º, humidade relativa abaixo dos 30% e ventos superiores a 70 quilómetros por hora estão criadas as condições para que haja mais incêndios e para que eles progridam de forma mais violenta. Este ano tivemos muito tempo com condições mais gravosas que estas que eu enunciei. — explica o militar da GNR Eduardo Gonçalves Lima.

E o incêndio da Serra do Caramulo não escapa a esta regra: temperatura elevada, humidade baixa, ventania. E um isqueiro. Em causa, dois rapazes das redondezas.

O primeiro incêndio é ateado na noite de 20 no caminho entre Nogueira de Alcofra e o estradão da Eólicas, a seguir à Capela de São Barnabé.

O segundo ocorre menos de meia hora depois perto daí, mais exactamente ao lado da Barragem de Meruge. De motorizada levaram minutos a lá chegar.

Em seguida, regressam à aldeia pelo mesmo estradão e ateiam mais cinco fogos aqui, que estão na origem da tragédia.

29 de Agosto: São Marcos, Muna, Santiago de Besteiros. 

A missão é atribuída aos bombeiros de Carregal do Sal nessa manhã pelo comandante dos Voluntários de Campos de Besteiros. A informação é que no local se encontram Sapadores Florestais. mas há mais gente... E há mais meios, incluindo um helicóptero da Empresa de Meios Aéreos (EMA).

Pensámos que era um fogo muito pequenino, de pouca importância embora reunisse características com alguma preocupação no meu ponto de vista. Portanto, era uma zona com muita inclinação, fogo muito rasteiro e o vento estava na encosta contrária. Portanto, naquela situação parecia inofensivo, mas uma mudança de vento podia deitar tudo a perder. — diz João Santos, piloto de um helicóptero da EMA.

E foi o que sucedeu. No local, há para além dos Sapadores Florestais, bombeiros de Santa Comba Dão, voluntários de Campo de Besteiros e ainda oito militares da Guarda Nacional Republicana (GNR), todos do Grupo de Intervenção, Protecção e Socorro, o GIPS que não estão sequer referenciados.

A brigada ficou aqui no campo da bola. O helicóptero aterrou aqui. Eles ficaram aqui. Depois eles acabaram por vir por esta estrada, por aqui fora, e tudo isto de passou, aqui, nesta zona. — complementa o piloto.

O jipe dos voluntários de Carregal do Sal pára aqui nesta curva do vale encaixado com encostas abruptas à frente de um carro de Santa Comba Dão. A umas dezenas de metros encontram-se os militares da GNR e, mais acima, os Sapadores Florestais e os bombeiros de Campo de Besteiros, cuja presença desconheciam.

O incêndio estava a progredir de uma forma muito lenta. Tanto assim que nós conseguimos até entrar na linha de fogo e começámos, portanto, a combater o incêndio, mas entretanto o próprio incêndio começou a criar essas correntes de convexão, começou a criar vento, começou a ganhar mais intensidade. — conta o militar da GNR Ricardo Lucas.

O incêndio alastra. No espaço de escassos segundos o panorama muda radicalmente de feição. A avidez do fogo não tem limites. As perspectivas são sombrias, degraçadamente.

Quando já estava quase com a minha autonomia esgotada, o chefe de brigada comunica comigo que de repente começou a ficar muito calor na zona onde eles estavam e precisava de uma descarga. Eu avaliei que realmente o calor que eles estavam a receber não era da encosta onde eles estavam a combater, mas da linha de água do vale encaixado onde realmente estava-se a gerar temperaturas elevadíssimas. Iniciei a aproximação a baixa altitude. Não conseguir baixar muito porque senti que o helicóptero começou a perder altitude devido ao calor que se estava a gerar e à densidade do ar ar, que era muito baixa. Efectuei imediatamente a descarga. Apercebi-me imediatamente pelo espelho do helicóptero que a água evaporou rapidamente antes de chegar à zona das chamas e senti o helicóptero como que a levar um pontapé e a subir muito rapidamente. Comuniquei com a brigada e disse para sairem imeditamente daquele sítio porque estavam-se a gerar temperaturas muito altas com tendência eventualmente a subir. — recorda, João Santos, o piloto do helicóptero.

Os bombeiros de Carregal do Sal também combatem as chamas apesar de desconhecerem o plano estratégico de acção a nível da missão a executar e das comunicações existentes, cujos sistemas são independentes.  Ninguém os informou. Tentam, por outro lado, contactar o comandante das operações de socorro. Teoricamente seria o sapador florestal referenciado, mas acabam por encontrar só o GIPS.  

Estávamos a fazer um combate directo ao incêndio e eu avistei, lá ao fundo do vale, que o incêndio de propagava pelo vale acima, entrando no dito vale encaixado. Avisei o pessoal que estava comigo, a equipa. Saímos. Eu fui o primeiro a sair. Chego à zona de segurança... Quando chego à zona de segurança, avisto a viatura dos bombeiros no meio do vale encaixado. Também tinham uma viatura como estavam a fazer o combate... — refere o militar da GNR Bruno Correia.

A zona de segurança — a única que há, aqui — é a terra queimada, as cinzas. O que havia para arder, já ardeu. Os bombeiros de Carregal do Sal, esses, prosseguem a sua faina. Combatem o fogo ou protegem o veículo ou... protegem-se.

Eu decidi tentar ajudá-los ou elucidá-los para eles sairem do local. Fui-me deslocar para o local, choco com alguém que era bombeiro. Depois, veio uma... a concentração de fumo é tão grande que eu deixo de ver. Foi quando eu me desloquei para baixo, sempre na tentativa de avisar os bombeiros. — Saiam! Saiam! Saiam!, só que eles não ouviam. Aquilo foi tudo tão rápido... — acrescenta o guarda Bruno Correia.

A fraga tosca arde. A fúria do fogo corre o penhasco, a encosta, a passos lestos. O guarda Bruno Correia tenta acudir os cinco bombeiros desamparados. Avança para eles, não obedece a nenhum plano. É preciso um milagre para se salvarem.

Cheguei ao pé deles. Foi quando se dá tipo uma explosão de fogo. As chamas passam por cima de nós. O céu é chamas. O que se vê à volta é tudo laranja: chão, inclusive. Tudo laranja! Dá a impressão que uma pessoa está dentro de qualquer coisa em chamas. E o fumo é intenso. Não se consegue ter a percepção de nada. É muito cerrado. Não se consegue avistar... consegue-se avistar pouco. Pouco. Um ou dois metros, talvez. Foi aí que consegui, se calhar, passar um bocadito o fumo.  Consegui avistar a dita mina onde eu me refugiei. — complemementa o militar.

Os bombeiros não encontram saída para aquele inferno. Por entre chamas e fumo o caminho transforma-se em segundos numa laje funerária.

Dei a volta. Ia dar a volta. Apercebo-me, então, que uma tragédia se desenrolou ali. Senti rolos... vi rolos de chama a subir a encosta. Dez segundos depois tinha um dos elementos do GIPS a comunicar via rádio para pedir ajuda porque havia mortos, feridos e um carro destruído. — narra o piloto do helicóptero.

No meio das labaredas e da fumarada os bombeiros buscam uma saída. Tentam arrancar o jipe. mas o motor vai-se abaixo. Embatem, aqui, contra esta parede rochosa.

Um dos elementos do GIPS chama pelo meu nome. — Socorro, Marília. Socorro. Imediatamente, peguei no rádio do jipe. Identifiquei-me. Ele identificou-se. Não sei se posso dizer o nome... Eu disse: Sargento, eu estou aqui. Diga rapidamente. Ele disse: — Marília, tenho aqui cinco elementos de bombeiros. Ele na altura não disse quem era. Eu não sabia quem era. — Estão cercados pelo incêndio. Temos cinco elementos da equipa heli-transportada também cercados pelo incêndio. Eu deduzi na altura que havia ali vários mortos. De imediato, fiz também uma ligação ao CODU pelo mesmo rádio e o CODU também estava a ouvir o que ele me estava a dizer e o que eu estava a transmitir. Isto facilitou porque eu estava a ouvi-lo. Ele dizia: — Já encontrei um. E conforme ele ia encontrando os corpos... — Eu encontrei um elemento. O CODU ia ouvindo. E ia enviando as ambulâncias e o que era necessário. Depois, ele ia-me dizendo: — Encontrei mais um. E aquilo foi terrível. Ele ia encontrando e eu dizia: — Sargento, força! Avance. Ainda vai encontrar os outros porque ainda nos faltava. Eram 10. E aquilo ele ia reduzindo. — Seis. Sete... Até que chegou uma altura que nos faltava um. Ele disse-me assim: — Marília, ainda falta um. Ainda falta um! E eu disse: — Caminhe, Sargento. Força! Você vai conseguir. Há-de encontrar. E quando ele chegou. Esse um, ele disse: — Marília, já não tenho hipótese. Encontrei um, mas  está carbonizado... — diz Marília Moita, da Protecção Civil.

É a amarga realidade. O jipe dos voluntários ficou neste estado. Os pormenores não valem nada, mas dão a noção do drama. Eram cinco. Três ficaram feridos e no meio da serra há, pelo menos, uma vida que se escoa.

Cátia, uma jovem bombeira de 3ª classe, acaba de viver a segunda hora da sua vida. São 11:00 da manhã.

Era meio-dia e tal. E batemos à porta da casa dos pais da Cátia. Eu e a enfermeira Joana, que é a 2ª Comandante, aqui, no quartel. E o pai da Cátia atendeu-nos. Abriu a porta e apercebeu-se logo que alguma coisa se passava. Nós dissemos que iamos-lhe dar uma notícia. Que tinha acontecido alguma coisa com a Cátia. Ele perguntou: — Mas o que é que se passou? Ela ficou muito queimada? Perguntou logo. E nós também começámos a enrolar as palavras porque foi uma situação assim muito complicada, não é? Ao mesmo tempo eu acho que nem uma nem outra estávamos preparadas para dar aquela notícia, mas tivemos que a dar e tínhamos que estar ali para dar uma força àqueles pais apesar da má notícia que íamos dar. Ele continuou a perguntar: — Mas o que é que se passa? Como é que ela está? E nós dissemos que houve um acidente, que... que o carro tinha ardido, que os bombeiros estavam feridos, que a Cátia não estava muito bem... Entretanto, o pai disse: — Mas vocês não me estão a contar tudo, pois não? E nós mais uma vez engolimos em seco e... e dissemos: — Pois, se calhar, o senhor é que não se está a aperceber de tudo. E ele perguntou: — O quê? Ela morreu? Não pode ser. E nós... E a partir daí foi... foi uma revolta. Foi um desespero. Foi muito duro. Foi muito duro... — recorda Camy Cristo, dos Bombeiros Voluntários de Carregal do Sal.

JORNAL DA UMA - TVI - Pedro Pinto

«É a sexta vítima mortal dos incêndios deste ano. Bernardo Cardoso era bombeiro da corporação de Carregal do Sal e não resistiu aos ferimentos do fogo da Serra do Caramulo.»

Tinha 19 anos. Era estudante, aqui, na escola secundária da vila. Estava a tirar um curso profissional de óptica ocular. Estaria, agora, no 12º ano. Estaria... E a grande força da vida, aqui como lá fora, é a memória.

Eu lembro. Eu vou falar como colega de turma, mas não é como bombeira. Eu e o Bernardo conhecemo-nos, aqui, na escola. Estivemos na mesma turma quatro anos. E o Bernardo era uma pessoa... (SILÊNCIO PROLONGADO) Era uma pessoa muito boa. O Bernardo era uma pessoa muito simples. Bom companheiro. Era um amigo. Era um colega. O Bernardo estava sempre ali. O Bernardo, quando ouvia a sirene, para ele era uma alegria. Podia estar alguém em situações diversas, aqui, o Bernardo era o primeiro a socorrer, era o primeiro a aparecer... E eu admirava isso muito no Bernardo. O Bernardo... à maneira dele, ele fazia as coisas de uma forma natural. Por mais que ele não quizesse e que quizesse abster-se da situação, o Bernardo não conseguia. O Bernardo tinha que lá estar. O Bernardo, aqui na escola, quando ouvia uma ambulância tinha que ir a correr. O Bernardo era um rapaz cheio de vida, sempre foi. E a imagem que nós guardamos dele e que vamos sempre guardar, o Bernardo era o Bernardo, ninguém pode substituir o Bernardo. Ele não morreu. Ele está aqui connosco. Vai estar sempre! — conta a jovem Maria.

É o que a vida consente, independentemente do desfecho irreal.

O Bernardo  tinha duas coisas essenciais: queria ser bombeiro e jogador de basket. Sempre nos intervalos e horas livres o Bernardo estava nos campos de futebol e de basket a jogar. Ele até estava numa equipa e era o que ele queria seguir. Além disso, queria ir para os bombeiros. Foi sempre o sonho dele, toda a gente sabe. Já estava em bombeiro de 3ª. Agora, queria era subir e chegar ao máximo que ele pudesse. — recorda Alexandra, uma colega de turma.

A disposição da sala de aulas foi mudada para apaziguar a dor e o vazio.

O meu filho... eu vou-lhe explicar como é que começou. O meu filho começou com um cinturão que eu tinha da tropa. E um bivaque antigo. Eu tinha aquilo pendurado. Pronto, foi uma recordação que eu tenho. O meu filho, coitadinho, andava na escola. Viu-me aquilo pendurado, volta e meia — Ó Pai, deixe-me andar com aquilo. Volta e meia: — Deixe-me andar com aquilo... E tenho lá aquilo pendurado. Está no quarto dele. — Ó Pai, o que é que tu fazias com isto? Ó Filho, aquilo era um cinturão do camuflado. Tenho um camuflado, sabe como é que era lá na tropa. Ele então, coitadinho, punha aquilo, ficava-lhe grande. Lá conseguia apertar-lhe aquilo para ele andar com aquilo. E daí começou... — desabafa António Cardoso, o pai de Bernardo.

Desapossado do único filho. O retrato que faz de Bernardo é, necessariamente, pungente.

Ele morreu porque, para mim, ele foi o herói daquilo. (SILÊNCIO) Mas também lhe digo uma coisa. Eu gostava de saber os pormenores disso. Quem é que os mandou lá para dentro naquele momento...

Poderá estar em causa a organização, o comando das operações, quem é quem, quem ordenou o quê, e os meios humanos e materiais, incluindo no plano das comunicações e dos equipamentos, para o combate a este incêndio florestal.

Sobre isso, eu não vou falar. Não lhe vou dar nenhuma explicação. Está a decorrer um inquérito e eu não vou fazer qualquer tipo de comentário sobre isso. — responde Miguel Ângelo David, dos Bombeiros Voluntários de Carregal do Sal.

Os bombeiros recusam pronunciar-se.

Sabe que um incêndio florestal é sempre muito complicado e, portanto, é natural que num teatro de operações desta dimensão, desta violência, haja sempre razões ou sempre momentos em que as decisões não sejam as melhores, mas quem tem alguma responsabilidade neste domínio e quem alguma experiência como eu tenho de 30 anos nos bombeiros, não fazia uma relação directa porque isso seria injusto para quem está no Comando, para quem está no teatro de operações, para quem tem de coordenar, para quem tem de combater, não fazia uma relação directa nestes termos de falta de Comando e perda de vidas ou falta de formação e mortes de bombeiros. — afirma  Rebelo Marinho, da Federação de Bombeiros do Distrito de Viseu.

Certezas: há dois suspeitos de crime de incêndio florestal detidos em preventiva.

Já morreram quatro bombeiros! Assassino. Assassino! Filho da p... — grita o povo aquando da detenção.

O primeiro está na cadeia de Viseu. O outro, na de Lamego.

Nogueira de Alcofra.

Mais uma tarde triste na aldeia. O ar parece encobrir ou toldar as feridas anacrónicas da alma. Esta gente não percebe. Não pode. Os dois suspeitos detidos são filhos desta terra.

Um, Patrick, emigrante no Luxemburgo, terá agido por vingança. Em causa: uma multa.

O outro, Fernando, foi atrás. Morava aqui. É o mais novo.

É triste! É triste uma pessoa com sentido fazer uma coisa destas. É triste uma pessoa ter um filho onde tem, não é? É triste para ele, onde ele está, que é um jovem, pronto, e já está na mocidade dele. E é triste para a família. Fica chocada também. É... — lamenta-se Norbinda Marques Marinho, a mãe de Fernando.

Era um moço sem perspectivas, aparentemente conformado com a sua sina. Não quebrava nem morria... até passar-se uma noite.

Ele andava lá com o senhor de ali de baixo, com o Patrick, não sei, não sei, não sei de mais nada...

Nunca mais falou com ele?

Não. Não. Tenho falado. Temos lá ido à prisão e falamos, mas... Pronto: se ele o fez ou mais o outro têm de cumprir, não sei.

A mulher deixa-se prender na trama ou no enredo das palavras e não é caso para menos.

Haverá responsabilidade maior do que a morte de pessoas inocentes? Eu penso que a palavra "responsabilizar" pode ser associada a preparar melhor, a mudar o tipo de abordagens que é feito no combate aos incêndios, nas políticas de prevenção, nas políticas de fiscalização e digo mais: a nível de formação, que sejam encontrados exemplos de circunstâncias em que tenhamos nós estado não tem bem e que eventualmente possam ser dados como ensinamentos para evitar situações futuras. Deveremos agir preventivamente na resolução de um problema, este sim, nosso grande desígnio nacional porque os incêndios florestais para a dimensão do nosso país é uma guerra, mas não é uma guerra dos bombeiros. É uma guerra do país. E contra o país. — conclui Miguel Ângelo David, dos Bombeiros Voluntários de Carregal do Sal.

Fernando foi detido uns dias depois fora de flagrante, aqui, pela Polícia Judiciária, que o apresentou ao tribunal de Vouzela. Terá confessado a autoria de cinco fogos. Patrick, que terá ateado os outros dois, entregou-se posteriormente às autoridades.

Cátia e Bernardo estão enterrados no Cemitério de Currelos.

Sabino, o outro bombeiro ferido na manhã de 29 de Agosto, recupera lentamente, sobretudo a nível psicológico.

Nuno, o terceiro ferido, continua internado no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Está em estado de coma. O seu prognóstico é reservado.

Rui Araújo

A equipa da reportagem "Cruel Agosto" era composta por Tiago Ferreira (Imagem), Sofia Rebola (Montagem), Ricardo Rodrigues (Grafismo) e Rui Araújo (Reportagem).

O trabalho foi emitido no programa "Repórter TVI" da TVI em 18 de Novembro de 2013.

"Cruel Agosto" conquistou no dia 24 de Maio de 2014 o Prémio Prestígio Media TV da Associação Nacional de Bombeiros Profissionais apesar de a equipa não se ter candidatado ao mesmo.

http://anbp.pt/ficheiros/uploads/25f05a2a482dd1151c316134c0db7379.pdf

https://tviplayer.iol.pt/programa/reporter-tvi/53c6b3483004dc006243bd77/video/57b0bebe0cf224ef98311b9f