TROQUEI A ARMA POR UMA MÁQUINA DE COSTURA
NOTA:
Esta reportagem contém imagens que podem chocar um público mais sensível.
Bria.
República Centro-Africana.
É o maior campo de deslocados do país.
É o PK3 - o quilómetro 3, para quem sai da cidade. Mesmo os lugares onde a vida não presta têm nome.
O PK3 surgiu do nada há quatro anos.
E, hoje, vivem, aqui, mais de 90.000 pessoas - incluindo muitas crianças.
Nações Unidas e organizações não governamentais fazem o que podem... Não chega!
São cristãos (a maioria da população do país), que com as abominações da guerra procuraram refúgio neste monte desolado.
O conflito começou em finais de 2012.
Uma crise interna seguida de um golpe de Estado regional transformou-se rapidamente numa guerra civil (étnica e religiosa), que opõe, hoje, as milícias animistas e cristãs anti-Balaka aos rebeldes muçulmanos da Seleka.
O dispositivo civil e militar da ONU - a MINUSCA - tenta preservar o essencial: as vidas. Da população e dos meninos soldados...
Os grupos armados recrutaram e raptaram milhares de crianças.
MAHAMAT DAMINE
16 ANOS - EX-GUERRILHEIRO
— Entrei para o grupo armado FPRC por causa dos acontecimentos. Eles massacraram a minha família. Os meus pais! Via muitos velhos a sofrer. É por isso que entrei para o grupo armado. Queria salvar as pessoas que estavam a sofrer…
— Tinhas 11 anos…
— Sim, tinha 11 anos.
— E ficaste cinco anos…
— Eu fiquei cinco anos no grupo armado FPRC…
— A guerra é o quê para ti?
— A guerra? Brincamos muitas vezes à guerra, mas a guerra não é boa. O que eu constatei na guerra… Vi muitos homens morrer. Mulheres. Crianças… A guerra não é boa.
— Mataste também?
— Sim, também matei.
— Sabes quantos?
— Sim, eu sei.
— Quantos?
— O máximo foi 11. (RI-SE)
BAKITA OUSMA
12 ANOS - EX-GUERRILHEIRA
— Há 4 anos foste para o FPRC. Porquê?
— Foi porque mataram o meu pai e a minha mãe que eu fui para os grupos armados.
— E ficaste lá muito tempo?
— Fiquei lá só um ano.
— Eras cozinheira?
— Sim, era.
— E como era a vida lá?
— Estava na selva.
— E que mais?
— Já não tinha família...
— E depois, um dia foste-te embora... Porquê?
— Sim, já não tinha nada...
— E como é que te foste embora? Fugiste? Foste embora como?
— Fugi para a selva.
— E, hoje, és livre com a ajuda de Esperança e da MINUSCA. Tens um sonho? Qual é?
— Quero ser comerciante. Quero fazer negócios...
Em 2019 o número de meninos soldados é uma incógnita.
Hoje, é dia de mercado e dia do Senhor.
6 e 50 da manhã.
É a hora da missa. Redentora ou nem por isso, pouco importa.
Cada um traz o seu banco ou cadeira. A igreja da paróquia de São Luís de Bria fica ali ao lado.
Alguns, poucos, aparecem de traje domingueiro...
O que conta é a santa oração... a partilha da desgraça e da angústia, mas sobretudo da esperança.
A celebração é efectuada dentro e fora do barracão. É o que há para tantas almas...
O calor é tanto que nem se presta atenção. Ninguém arreda pé. Penitência e fé andam de mãos dadas...
Os pobres dão uma nota ou uma moeda. Os que podem.
A seguir, é o momento crucial da comunhão. Da salvação sem glória...
Fim da liturgia. E princípio das imprecações de boa-fé...
BRUNO KONGBO
ABADE DE BRIA
— Foi a fuga da guerra… Foi a guerra que os levou a fugir para se refugiarem, aqui, neste lugar do PK3. Se olhar para eles, se os vir, pode sentir o que estão a viver nos confins do seu corpo e nos meandros da sua alma e do seu espírito também. Estas crianças terão um futuro se esta guerra terminar. E como a guerra está a acabar, creio que estas crianças terão um futuro. Mas no preciso momento em que lhe falo, nem as escolas funcionam sequer... As crianças são numerosas neste campo e pode, por exemplo, encontrar 400 alunos numa única sala de aulas. Quatrocentos alunos. Como... como acompanhar essas crianças? Não há água potável. Nem centro de saúde. A comida. A escola. Tudo... tudo deixou de funcionar. Olhe... Olhe.... Olhe...
As tréguas com Deus raramente deixam um sabor tão amargo na boca.
No PK3 não há água potável, não há luz, não há esgotos, não há...
Comida, é só às vezes...
A República Centro-Africana em números:
4.700.000 habitantes
688 000 deslocados
540 000 refugiados nos países vizinhos
(FONTE: PNUD)
É impossível arrepiar caminho sem olhar primeiro.
Imaginar a desgraça é pior do que vê-la... quem o diria...
Calcorreamos as veredas.
Olhamos.
A banca do merceeiro.
O carregador de telemóveis...
A latrina...
A roupa a secar... e o céu, que, aqui, fica longe.
Na penumbra um homem tenta esconjurar o sofrimento ou perdeu a razão. Uma vida amortalhada... mais uma.
Um recém-nascido deixa correr as horas, que, aqui, já deixaram de medir...
Fora do campo PK3, mesmo do outro lado do caminho, está o atelier de costura dos ex-combatentes anti-Balaka - o nome que dão às milícias cristãs. Anti-Balaka quer dizer em sangho, uma das duas línguas oficiais do país, "anti-catana" ou "anti-balas de AK-47".
Com a ajuda das Nações Unidas), que lhes deu a formação e as máquinas, desafiaram o destino e ganharam.
As blusas, as camisas, as cuecas e os fatos são feitos à medida do freguês.
Preços: as camisas simples ficam a 3.000 francos (4,50 €) e os boubous (é o nome que dão a uns fatos) custam 15 mil francos (23,00 €).
A clientela é, essencialmente, feminina.
ANDRIENNE POUMALE
CLIENTE
— Isto, aqui, custa 5.000 francos CFA (7,69 €).
— 5.000? (7,69 €)
— Sim. Estás a ver a diferença, não estás?
— Muito bonita...
— Sim.
— Obrigado.
— Obrigada. Muito obrigada. O teu nome qual é? O seu nome...
— Rui.
— Eu sou a Andrienne Poumale.
Metemos conversa com os quatro ex-guerrilheiros.
Outras tantas histórias de sofrimento, esforço incansável e de esperança...
ZACHARIE MBIAPOU
EX-GUERRILHEIRO E COSTUREIRO
— Eu penso que... perdi tudo o que tinha. Agora, procuro recuperar esses bens. A situação ainda não assentou, mas pouco a pouco acabará por assentar...
Aqui há gente que não consegue pedir esmola e recusa o absurdo.
Escutamos, pasmados ou envergonhados, os desabafos e as reflexões de uns e outros...
PIERROT MANDATA
EX-GUERRILHEIRO E COSTUREIRO
— E qual é o balanço que faz, hoje, desses anos de guerra? — indago.
— O balanço é negativo... O balanço é negativo para os dois lados porque andámos inutilmente a matar-nos uns aos outros e o problema nem era nosso. Isto é um problema do governo. Depois, com o tempo, percebemos que andamos a matar-nos uns aos outros inutilmente. Somos irmãos de uma mesma Nação... Foi a política que nos separou para provocar este conflito...
— Não é um problema de religião que está na sua origem?
— Não é um problema de religião nem um problema de etnias... É a má governação que desencadeou tudo isto. E propagou-se...
— Há bons nesta história ou são todos maus? Os Seleka como os Balaka...
— Os Seleka como os Balaka... ambos são maus. Os dois lados são maus...
As guerras são todas sujas. E nem os mais devotos ou, tão simplesmente, bem intencionados escapam à levada do fanatismo e da morte...
HERMAN MANDAZO
EX-GUERRILHEIRO E COSTUREIRO
— Tinha 15 anos e fui capturado pelos do Exército de Resistência do Senhor (LRA). Levaram-me para nos formarem. Deram-me a arma para ir capturar outra criança para ser formada. Éramos muitos. Havia muitas crianças. Lá... podias até encontrar crianças do zero aos 18 anos se fosses lá. Podias encontrá-las... Nós íamos, não sei se posso dizer...
— E a guerra? Como era a guerra?
— Sim. Fomos para a guerra para apanhar... Se queres entrar numa vila, podes dar de caras com os militares ou sei lá o quê. Fazemos a guerra para apanhar pessoas. É preciso ficar com o dinheiro e matar... E apanhar mais pessoas, levá-las para a selva para serem formadas pelos rebeldes.
— Viste a morte de perto?
— Eu vi.
— E qual é a sensação?
— Dói-me.
— Mataste pessoas?
— Sim. Matei pessoas.
— Contaste quantas foram?
— Eu não contei. O que fiz pertence ao passado. Eu não posso contar isso.
— Agora estou orgulhoso de mim porque deixei a arma e arranjei uma máquina de costura para trabalhar. Se tiver algo para comer e para o resto, fico contente.
Os remorsos... Os abalos morais não resolvem nada, mas não deixam de ser penosos...
Há grupos mistos de ex-combatentes que estão a ser formados, aqui, pelas Nações Unidas, mas a situação em Bria continua instável para não dizer caótica...
EVARISTE GONGA
EX-GUERRILHEIRO E COSTUREIRO
— O mais difícil é o problema da paz. Dizem-nos, aqui, que tudo acabou, mas lá fora a guerra continua... Se sairmos daqui para irmos para lá, há outras coisas que sucedem lá. Mas nós, aqui, não temos força para fazer algo...
— Com os Seleka...
— Sim.
— Não se pode sair da cidade livremente...
— Pois.
Os grupos armados controlam 80% do território.
A MINUSCA e a associação não-governamental Esperança estão a promover a reinserção...
Escutar para crer...
KOYO HAROUNE
17 ANOS - EX-GUERRILHEIRO
— Tinhas 9 anos quando foste para o FPRC. Porquê?
— Porque os rebeldes (cristãos) que se chamam anti-Balaka mataram o meu irmão mais velho.
— Os cristãos...
— Sim.
— E ele tinha 36 anos...
— 36 anos.
— E tu foste para o FPRC para fazer o quê?
— Porque os anti-Balaka mataram o meu irmão mais velho. Foi por isso que fui para o grupo armado.
— Querias vingar-te?
— Sim. Eu queria vingar-me.
— E foste soldado com 9 anos de idade...
— Com 9 anos de idade.
— E o que fazias lá?
— No grupo armado? Eu só matava as pessoas. Ia para o terreno...
— E viste muitos mortos?
— (RI-SE) Sim. Eu matei muita gente.
— Muita gente?
— Muita.
— Muitas pessoas são quantas?
— Eu não conto... Eu não conto.
— E matar. É o quê?
— Matar? Eu mato com armas.
— AK-47. Kalashnikov…
— Kalashnikov. Com foguetes RPG…
— E o que se sente a primeira vez que se mata alguém?
— O quê?
— O que sentiste a primeira vez?
— Não me fez nada.
— Nem depois?
— Nada.
— E vingaste-te?
— Sim, é verdade. Vinguei-me!
As crianças eram sistematicamente manipuladas pelos chefes dos grupos armados.
Tácticas usadas: incitamento do ódio religioso e racial e encorajamento da vingança.
MUBARAK CONTRAO
13 ANOS - EX-GUERRILHEIRO
— Mubarak Contrao. 13 anos. Tinhas 9 anos quando foste para o FPRC. Como é que as coisas correram?
— Correram bem. Quando eu fui para lá... As coisas correram bem. Vivi quatro anos no grupo armado. É assim... Os rebeldes mataram o meu próprio irmão. É por isso que eu quis vingar-me.
— E conseguiste vingá-lo?
— Não consegui vingá-lo.
— E como era a vida lá durante esses 4 anos?
— Nesses quatro anos, a vida foi dura. Eu não podia ficar no grupo armado. É assim. Saí.
— O que era o mais díficil lá?
— Lá, nunca se parava. Eu não aguentava. Ninguém era bom. Não dormia. Eu não podia...
— E... a guerra. Era como?
— A guerra é violenta. Eu não suportava. É por essa razão que me fui embora.
— E a tua guerra lá era o quê?
— A guerra contra os anti-Balaka (cristãos). Sofremos um ataque muito complicado. Fui ferido na mão. Foi por isso que preferi sair do grupo armado. Não aguentava...
—Há bons e maus?
— Há maus.
— Só maus?
— ... (ACENA)
— E... há alguma coisa que lamentas? Há algo que tenhas feito e, hoje, lamentas? Hoje, não o fazia...
— Algo que tenha feito lá? Eu não fiz nada lá... A única coisa foi eu matar uma pessoa... Lamento.
No campo ao lado é o princípio de outro jogo.
Outro desafio para ganhar...
Apesar da presença no país de uns 11 mil e tal homens da MINUSCA e da assinatura de 8 acordos de paz a situação permanece instável.
5 de Janeiro de 2019.
A Força de Reacção Rápida portuguesa é projectada para Bambari.
Os rebeldes da UPC controlam a cidade...
Montaram barricadas para impedir a MINUSCA de patrulhar...
Passados poucos dias, 140 paraquedistas portugueses e duas companhias nepalesas do NHRPB expulsam a UPC do quartel-general de Adji, um bairro muçulmano de Bambari.
Os combates, que chegam a Bokolobo, uma vila a 60 quilómetros da segunda cidade do país, vão provocar dezenas de mortos...
Rui Araújo
Reportagem emitida na TVI - 3 de Junho de 2019
https://tviplayer.iol.pt/video/5cf58ea70cf2587d42b93af6
NOTA: (CONTINUA) A segunda parte é: NOME DE CÓDIGO BEKPA-II












